A honestidade e o algodão...

Muito embora não fosse para tanto, atenta a proveniência, fiquei boquiaberto quando me foi dado ler que dirigente socialista afirmou representar a Grécia o reflexo da nossa situação, não fora a acção do partido onde o mesmo milita, aconchegado. Eu diria, simplesmente, o inverso: seríamos a outra face da mesma moeda grega se, equivocadamente, nos tivéssemos deixado embalar pelas melodias socialistas. Se a teimosia em negar o óbvio não fica bem, pior fica tentar virar o óbvio do avesso. A não ser que certa gente pretendesse a manutenção dos desmandos que tanto prejudicaram o país.
Hora feliz em que alguém, numa demonstração de coragem e inteligência, resolveu correr com a tralha que nos (des)governava. Coragem, porque sabia, de antemão, parte do que o esperava; parte que se suporia ser o todo... E avançou. Inteligência, porque, sabendo que haveria de tomar as rédeas do poder, travou, antes que mais tarde fosse, o regabofe que imperava. E, ao longo dos tempos, foi dando a conhecer atributos que fazem a sua imagem de marca, mormente honestidade intelectual e da outra, pergaminhos escassos noutras gentes. Abundaram sacrifícios para muitos (não para todos...), mas com resultados positivos em tão pouco tempo e que somente os teimosos, por feitio, defeito, ou conveniência, pretendem fazer de conta que não distinguem. Atravessámos, penosamente, o deserto das incertezas, do medo, mas chegámos a terrenos onde bem queríamos chegar, e instalou-se confiança, esperança nos corações, fé relativamente a um futuro melhor, alicerçado no rigor e na verdade.
Leio jornais e vejo televisão: jornais que não escrevi e grosserias televisivas que não alinhei. Se, no passado, nos incomodava a censura, incomoda-me hoje que determinados sujeitos escrevam e digam aquilo a que são obrigados. Revolta-me que certos directores, sub-directores, directores-adjuntos, directores executivos e outros quejandos fulanos se prestem a uma obediência tão cega às vozes dos donos, obrigados a pagarem, religiosamente, o tributo a quem os seriou, quiçá não tanto pelas suas qualidades profissionais quanto pela certeza da obediência, proporcionando repulsa a forma como todos, autómatos, acenam e da mesma forma, aos trejeitos da batuta que os rege. Comentadores e analistas políticos profissionais e de serviço, porventura aspirando a eventuais prebendas futuras, se Lisboa pagar a traidores, colocam-se em bicos de pés e braços levantados, salivando ante a possibilidade de algum naco os favorecer. Alguns, portam-se e comportam-se ao sabor dos ventos e das aragens, por natureza. Outros, de “mau carácter militante”, ressabiados ainda pelo lugar almejado e que não lhes tocou.
Muitos foram os sacrificados no decurso dos últimos tempos. Mas souberam aguentar, estoicamente, e compreenderam. E sabem que não serão promessas ilusórias a demovê-los de uma escolha ponderada e consciente. Ninguém se disporá a vestir a pele de pagador de promessas que outros fazem, meios fáceis para o retrocesso e sacrifícios acrescidos. Que propagandistas bem falantes não desvirtuem o trabalho árduo e meritório que um punhado de cidadãos honestos produziu em favor de todos, por muito que certas verdades se tornem difíceis de mastigar e engolir.
Escrevo segundo a antiga ortografia