A nova Ordem

Falar na nova ordem desperta simultaneamente a atenção pessimista para o pousio a que progressivamente parece condenada a ONU, e por outro lado, a esperança de que estadistas ainda ignorados ou mal conhecidos, tenham o talento, até agora perdido, de mobilizar as sociedades civis sacrificadas para uma nova esperança de desenvolvimento sustentado. Pode o centro europeu levar a cabo o desmantelamento do sonho europeu posterior à segunda guerra mundial, mas o seu regionalismo, de fronteiras restritas, por este caminho não terá uma intervenção à altura da memória resguardada da grandeza que já teve. Por muito que se tenham multiplicado os avisos sobre a decadência do Ocidente, neste canto do mundo que é a Europa, unida ou desunida, assim não voltará a brilhar o sol que fez dela a “luz do mundo”, porque os emergentes não terão ficado em figura de retórica.
Aceitando que a história não se repete, não pode todavia esquecer-se que a experiência é mestra da vida, e por isso, não é inútil recordar como o Japão, conseguiu, na primeira guerra mundial, fazer o caminho que o levou a membro do Conselho dos Dez, órgão dirigente da Conferência de Paris, que decidiu as questões mais importantes da paz a instaurar. Durante anos, que pareceram mais eficazes quanto aos esforços que ganharam forma na Carta da ONU, foi sendo discutido o imaginável novo equilíbrio que os BRIC trariam eventualmente ao poder do G8. Nesta data, e depois do regionalismo europeu ter feito ressuscitar o Limes Romano para enquadrar os pobres do sul mediterrânico, e dado um severo golpe na estrutura com a política, inábil ou intencional, seguida em relação à desorganizada mas indispensável Grécia, o esforço dos BRIC para uma nova ordem, destacando a China, a União Indiana, o Brasil, a Indonésia, o México, a Turquia, com maior ou menor acerto na enumeração, terão uma intervenção diferente da vontade que levou à inviável organização do Conselho de Segurança, com a China durante anos a ver o seu lugar ocupado pela Ilha de Taiwan, e a enfraquecida Europa, esquecida do regionalismo que as circunstâncias impulsionaram, a entregar à Inglaterra e à França o direito de veto.
Na atualidade, mais visível se tornou a falta de relação entre o poder de cada uma e a função atribuída, com a França a resvalar para dentro do Limes romano ressuscitado, e a Inglaterra duvidosa quanto à capacidade de manter o Reino Unido, talvez a preferir seguir o conselho da senhora Thatcher quanto à defesa da importância da ligação com os EUA e consolidação da Comunidade Britânica, e por isso sem nunca esquecer que o Canal debilitava a sua visão de compromisso com a União Europeia. A história, que sucessivamente foi fazendo evoluir os conceitos de dragões asiáticos, de tigres asiáticos, de países emergentes, parece iluminar, por enquanto com perceção incerta da imagem que a realidade projeta, o crescimento do que já foi chamado “uma vontade partilhada de reequilibrar a ordem mundial”, um conceito que não parece recolher o auxílio das políticas da supremacia que vão enfraquecendo a unidade do projeto europeu, os seus princípios, os seus valores, e o seu destino.
O poder é sempre uma relação, e este enfraquecimento dá maior expressão à intervenção dos emergentes, e diminuir as resistências que existem derivadas da concorrência que desenvolvem entre si, designadamente no domínio da energia. Tudo alerta para o facto de que o conceito de mercado único continua presente mas à espera de uma ordem mundial que o estruture, e que o conceito da terra comum dos homens espera dessa ordem que limite a destruição progressiva da sua capacidade de sustentar o rebanho humano, sem diferenças de cultura, religião, ou etnia. Conseguimos sair do caos derivado da brutalidade da guerra mundial, porque tivemos estadistas capazes de compreender a circunstância e voz capaz de mobilizar os povos. Neste século sem bússola falta que se manifestem estadista com igual dimensão.