O Género desta Igreja…

Tenho ido regularmente ao meu Porto. Há muito que o trato por tu, conheci-o por volta dos meus onze anos. Lembro-me como, espantado, olhava pelo postigo da porta de entrada, naquele soberbo casarão na R. Costa Cabral, a ver e a ouvir ranger aqueles comboios pequenos, de uma só carruagem, com nome de Eléctrico. Até os autocarros andavam com um pau às costas. Se pudesse contar aos amigos que longe ficaram, em Felgueiras do coração, acredito que muitos não iriam acreditar. Mas estava ali para uma nova etapa da vida pois, após falecimento do meu Pai, a numerosa família deslocou-se e para trás ficou o passado na poeira dos tempos.
O Porto deu-me guarida, caminhamos juntos, viu-me confiante e desalentado, dançou comigo nas noites de S. João, aprendi com sábios professores no velho colégio João de Deus dos padres Albano e Germano, fui um dos ratos da Faculdade de Economia no sótão da Faculdade de Ciências e ainda inaugurei a actual Faculdade na cidade universitária ali para os lados do Hospital S. João.
Da disciplina que mais gostei, de todas que estudei, na Invicta cidade, foi seguramente o snooker. As amizades cimentavam-se, naqueles tempos, por entrosamentos vários, passando pelos estudos, anedotas, bailes de garagem, cafés, tascas e snooker, claro. Fiz os dois semestres completos, Snooker I e Snooker II, completei-os no Café Estrela Douro ali na Rua da Fábrica, perto dos Aliados. Mestre fiquei.
Por ali errei catorze anos, misturei-me nos becos e vielas, calcorreei a História através dos irregulares paralelos que calcetavam a cidade, alvorei-me conhecedor daquele burgo que agora se abre ao mundo. Cedo, dois acontecimentos alertaram-me para a volatilidade do conhecimento e para o espanto perante a ignorância que faz corar.
Já longe, em Lisboa onde vivo há quarenta anos, algo me fez desejar o alçapão do ilusionista. De raiva, tirei teimas e, para não ser único, fiz pergunta directa a nascidos, actuais habitantes ou com fortes vivências naquela cidade:- onde nasceu o Infante D. Henrique?
As respostas, a vinte inquiridos, foram todas no mesmo sentido: ali para os Algarves, talvez Faro ou Sagres. Aos portuenses não basta o lendário eléctrico da Marginal, “Via Infante”!!!!
Em deslocação recente ao Porto, novo confronto, por caminhos centenas de vezes percorridos, o espanto de novo me invadiu. Partindo do Hospital St. António, no sentido dos Leões e pela esquerda, existe quarteirão soberbo: antiga Faculdade de Letras, GNR e duas Igrejas. As instalações da GNR e a primeira Igreja formavam Convento de antiga Ordem Religiosa mas a Igreja não se chama, como sempre pensei, Igreja das Carmelitas mas sim Igreja dos Carmelitas. Seis décadas não foram suficientes para a aprendizagem pois, para mim, este nunca foi o Género desta Igreja…