A PRIMEIRA ENCICLICA DO PAPA FRANCISCO

Ao mesmo tempo que apareceu na língua portuguesa A Lista de Bergoglio, da autoria de Nello Scavo, sobre “os que foram salvos por Francisco durante a ditadura” (Argentina), editado pela Paulinas Editora (2013) também o Papa Francisco nos envia, ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas, e aos fiéis leigos, a sua: Evangelli Gaudium, “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. De facto é um texto que se dirige ao povo da casa comum que é a Terra, e que particularmente interessa a este outono do Ocidente, a esta Europa em crise, e a um Portugal atingido pela expansão da área da pobreza para o Norte do Mediterrâneo, este por sua vez a transformar-se em cemitério dos imigrantes vindos da África que não conseguiu mobilizar a riqueza que o seu território guarda. Mas no que toca aos europeus da área pobre do Mediterrâneo, em que nos incluímos, e no qual o ataque ao Estado Social parece a moldura da ideologia do orçamento que atingiu as estruturas, a leitura da pregação é não apenas útil, mas imperativa. Lembrará aos que aderem ao credo do mercado, esquecendo os valores, e que a comunidade deve ser uma comunidade de afetos, o seguinte: “o grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada”. E ainda, com firmeza, a chamada de atenção para que “assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata”. Enfim, a conclusão de que “a crise mundial, que acomete as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: “o consumo”. Como não existe governança sem poder estabelecido, e não há poder estabelecido sem programa, convirá não esquecer que a unidade europeia, hoje em risco, foi, no fim da guerra, uma construção da democracia-cristã, convergente com o socialismo-democrático, e que, por isso, o Estado Social, tão posto em causa, tem na doutrina social da Igreja um fundamento sólido que não pode concordar com um credo de mercado sem ética e que não aceita que esse dever de garantir os chamados “direitos-prestação”, os confunda com a caridade que tem fundamentos em que o Estado não é a autoridade.