Sufoco…

Sabe sempre bem beber o tempo, degluti-lo saboreando o momento. A idade experiente faz de nós seres de calma, de outros olhares para as realidades. Saber cruzar a informação que nos chega, decifrar as alternativas possíveis, ver para além da emoção, são atributos do meio caminho. Hoje consigo olhar para o passado retirando dele a energia das loucuras felizes, da juventude inesgotável, das paixões que inebriam, das certezas indestrutíveis. Ao mesmo tempo olho para o futuro não com o vislumbre da derrota mas com o desafio da luta, fonte da juventude.
São muitas as vezes que me ofereço à estrada para dela extrair as vitaminas que me sustentam. Num Natal que já lá vai, alturas de confrontos interiores em que o dar e receber se balanceiam, em que os estados de alma extravasam, em que o chilrear das crianças não incomodam, antes nos insuflam adrenalina, devorei alcatrão na subida ao paraíso.
Parti, ciente da partilha do passeio. Acompanhava família querida ao início do caminho, viagem de regresso. Deslizei na soberba descida do vale da Vilariça com vistas privilegiadas para o ondular de novas vias anunciadoras dos ventos que mudam os tempos. Subi, já utilizando novos caminhos, pelos soberbos socalcos do Alto-Douro, escondido lá das profundezas do Pocinho aos cumes de Almendra tendo como meão a beleza inesgotável do ondular montanhoso do Côa.
O frio sadio, o nevoeiro misterioso, os raios de sol de anunciação, todos indiciavam um dia de dádiva. A sequência, aperitivo da zona, levou-nos por Escalhão sentindo o cheiro profundo do lendário rio na sua estrada internacional, entre os penhascos arrepiantes de Freixo de Espada à Cinta. Ao longe perspectivava-se o anúncio dos planaltos das terras de Espanha, de maus ventos e fracos casamentos.
E lá chegámos, eu e cunhado meu.
O morro é braço estendido aos céus. O lugar é hino ao recolhimento, ao encontro connosco. Aqui, tanto podemos conversar com nossos medos como transmitir segredos calados. O lugar que procurávamos estava à nossa espera estendendo-nos rebuçados de boas vindas. O sítio do comércio é conto de fadas. Os cheiros das ervas aromáticas bailando com os inebriantes odores expelidos de saquinhos de variados chás, são activações de memórias. O dono mentor é figura de conto de fadas com seu bigode Gepeto e avental serviçal. O exterior, debruçado entre penedos, com estonteante vista para vale inesgotável é soberba da Criação. E foi aqui, em penhasco guerreiro, isolado em cadeira amiga, sôfrego de paisagem, aconchegado por ares amigos, que acenei o até-já a meus sogros, novos viajantes celestes. A aragem, o silêncio e a imensidão fazem de Castelo Rodrigo uma lenda carregada de arrepio, ternura, paixão e Sufoco…