A opinião de ...

Silêncio

Bem-aventurados os que apreciam o silêncio. Já as razões podem ser múltiplas, ainda que uma me pareça inevitável: é deles a vida espiritual. A vida segundo o espírito alimenta-se do silêncio, do silêncio orante. Depois do dia de S. José e no limiar daquela semana que contando os mesmos dias que todas as outras é a Grande Semana, a intensa Semana Santa, o silêncio impõe-se como espaço a habitar e disciplina a exercitar. Não um silêncio qualquer, mas um silêncio cheio, habitado. Nesta reta final da Quaresma é de sugerir habitar o silêncio habitado. Se S. José segue sendo apresentado como homem silencioso e discreto na fidelidade e no trabalho, Jesus quando procurava e se retirava para lugares ermos e ali se detinha em oração, ensina-nos que o seu silêncio estava cheio da presença do Pai. Enquadrado nestes momentos de aparente solidão se compreende aquele grito no alto do silêncio angustiante da cruz: «meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». Abandonado, recebendo dos seus a indiferença, este grito seria isolado e desesperado se não fosse um salmo rezado, uma parte do seu eterno diálogo com o Pai.
Da forma como Jesus viveu, cada um de nós, que nos dizemos cristãos, retiramos a sabedoria divina capaz de recriar a nossa vida. Assim, quando o silêncio nos visita como dom (na verdade, ninguém convoca este incómodo hóspede!) e se torna espaço propício para o nosso encontro e o diálogo com Deus atinge o seu pleno sentido. Torna-se experiência inalienável de crescimento espiritual. Porém, não significa que seja tarefa fácil. O silêncio é perturbador. Por isso, tanto quanto espaço a habitar, é disciplina a cultivar. É-nos dado como espaço de todas as vidas, mas só é recebido na medida em que não fugimos da sua exigência. Na vida de todos, pela perda ou pela doença, em dificuldades de todos os quadrantes, quando não compreendemos ou não somos compreendidos, quando não nos sabemos queridos ou capazes de querer, ou sobretudo, quando crentes fazemos um Deus à nossa imagem e semelhança e desse Deus saboreamos indiferença, o silêncio é estridentemente insuportável, é uma forma de agressão. Resta salvá-lo, habitando-o, ou melhor, reconhecendo que todos os silêncios e todas as solidões são passíveis de ser habitados. O silêncio emerge assim como o tempo e o espaço habitado por Deus dentro de uma história que está salva mas não está previamente determinada, uma história que é continuamente surpreendida pela dor e surpreende Deus com os gritos (basta ir até à Síria de agora). Sabemos porém que Deus nunca foi indiferente aos gritos, mesmo quando não dirigidos a Ele. Sabemos que esta história habitada por Deus florirá e merece o tempo construtivo da espera.
Apraz-me uma frase de Raul Brandão, que pode aqui surgir descontextualizada e por isso reinterpretada, e que diz assim «a história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore: na árvore todo o trabalho obscuro se congrega para produzir a flor». É uma frase sincera, capaz de a seu modo narrar o mistério pascal que celebraremos de uma forma solene nestes dias. Dela depreendo que, do obscuro da cruz à luz florida, a Páscoa não se compadece sem silêncio.

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