A opinião de ...

Da ‘fé’ [de Tomé] à Fé

«Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29). Esta é a resposta que Jesus dá a Tomé – e também a cada um de nós – e que surge pela dificuldade de acreditar, de confiar e de amar do próprio Tomé. Mas o que significa isto? Significa que são felizes aqueles que fazem a experiência pessoal com Jesus. Não uma experiência sensorial, folclórica ou cogniscível. Antes, é um encontro que se faz no mais íntimo de mim mesmo, no fundo mais fundo do meu coração. E já sabemos que todo o encontro é, por um lado, lugar de descoberta e de reconhecimento e, por outro, lugar de encantamento e de enamoramento. Nele – no coração – não há fingimento, não há máscaras, não há subterfúgios; somos nós mesmos. Nesta mesmeidade o homem descobre e reconhece quem é, qual o seu lugar na historia e na comunidade, e, o mais importante, que é profundamente amado por Deus.
A fé é, deste modo, o resultado deste encontro amoroso com Deus, tornando-se ela mesma como dom de Deus. Já acredito não porque vi ou toquei, ou porque se trata de uma constatação lógico-metal ou cognitiva, mas acredito porque me deixei enamorar, e como enamorado que sou reconheço a origem do amor, reconheço Deus como amor e amante. O nosso povo diz com muita sapiência: «quem feio ama, bonito lhe parece». É isto mesmo: só um coração amado e amante é capaz ver o invisível no visível, ver o que está oculto. É olhar do coração! É o olhar do amor! É reconhecimento e descoberta! É encantamento e enamoramento!
Porque amo, acredito. Não necessito de constatações fenomenológicas ou metafisicas. Preciso sim, e quase desesperadamente, de renovar constantemente este encontro íntimo, profundo e fundante, no silêncio e na oração. Nesta intimidade do coração, Deus estabelece com o homem a sua aliança. É renovada a promessa primordial de amor! E a fé, como dom de Deus, surge como constatação desta mesma aliança, deste mesmo vínculo amoroso e eterno de Deus connosco. Assim se compreende que oração é fruto deste encontro fundamental e fundante. Só reza verdadeiramente quem se encontrou e se deixou encontrar no coração.
Se a oração é resultado natural de quem fez esta experiência de encontro, como pode alguém dizer que tem fé se pouco ou nada reza? Pior, não estará ele a viver nessa mesma mentira, retardando o encontro vital e fundante com Deus? E se Lhe damos as sobras do nosso tempo e as migalhas da nossa atenção, como posso eu dizer que O amo, que tenho fé? Mas será que alguém vive ou sobrevive com as migalhas? Se assim é, perguntemo-nos, até quando continuaremos a magoar Deus com as parcas sobras e migalhas que Lhe damos?
Urge assumir e viver esta experiência de encontro com Deus no coração de cada um. Saibamos ser o que estamos destinados a ser: filhos amados e gerados para o amor, para a todos amar, para a todos ser transparência visível da ternura e da misericórdia de Deus. Tenhamos abertas as portas e as janelas do nosso coração para que a Luz possa entrar por elas e, assim, iluminar cada recanto do nosso coração, da nossa vida e da vida daqueles que nos rodeiam. Abramo-nos à Graça, abramo-nos a Deus!
 

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