NAS MÃOS DELAS

O novo governo francês tem uma composição absolutamente paritária. É sem dúvida um passo gigantesco na igualdade de género embora nenhum dos postos de topo tenha sido entregue a uma mulher. Muito longe da tradição liceal brigantina que já antes do 25 de abril fazia eleger uma Direção Académica em condições absolutamente iguais, no que toca ao género, pois se havia um Presidente, um Vice-Presidente, um Tesoureiro e um Secretário, havia igualmente uma Presidente, uma Vice, uma Tesoureira e uma Secretária em igualdade de situações, poderes e representatividade. Infelizmente, ao contrário de outras conquistas abrilistas, neste caso esta prorrogativa perdeu-se depois da revolução dos cravos. Dir-se-á que era apenas uma Academia de Alunos de Liceu e que o seu poder real não ia além da organização dos festejos de fim de curso, com teato, variedades, festa, baile de gala e concurso de canções. É verdade que a úllima e que tive o privilégio de pertencer já foi eleita (por voto direto e universal) com base numa disputa com contornos políticos antevendo a primavera democratizante que se anunciava. Pese embora o pequeno impacto que de facto pudesse desempenhar o que à data mais importava era a forma natural como esse imperativo era encarado e facilmente aceite. Veja-se que foi necessário esperar mais de quarenta anos para ver que a uma predominância masculina é perfeitamente aceitável uma predominância de liderança feminina, pelo menos em algumas áreas. Mesmo assim é motivo de notícia como vários órgãos de comunicação realçaram. Aconteceu tudo com a recente eleição de Isabel Mota para Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.
 
A chegada da ex-secretária de Estado do governo de Cavaco Silva ao topo da maior Fundação Privada sedeada no nosso país veio juntar o seu nome ao de Leonor Beleza na Fundação Champalimaud e de Ana Pinho Macedo da Silva na Fundação Serralves. Sabendo o investimento vultuoso que a chegada da Fundação Champalimaud veio acrescentar ao financiamento privado da atividade científica até há bem pouco tempo quase exclusivo da Gulbenkian, não é possível deixar de relevar o contributo de outras mulheres tais como Carmo Fonseca como presidente do Instituto de Medicina Molecular e de Maria Manuel Mota, como diretora. Apesar de inserida numa instituição pública convém, ao falar de ciência, não esquecer Elvira Fortunato frequentemente considerada uma das mulheres mais influentes da sociedade portuguesa.
 
Há contudo, uma questão importante a realçar. Estas mulheres (e muitas outras que não chegaria esta página para as referir todas) chegaram aos lugares que ocupam por mérito próprio, por reconhecimento incontestado do seu valor, sem que tivessem “necessidade” de se socorrerem ou apelarem a qualquer Lei ou regra de paridade.
 
Em todos estes casos há não só o reconhecimento do valor que lhes assiste como igualmente há a natural expetativa que o nosso mundo fique melhor com este contributo de excelente qualidade, no feminino.