O CAMELO E A AGULHA (I – DO TEXTO BÍBLICO)

“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”
Lucas 18:25 e Mateus 19:24
 
Esta é uma afirmação marcante de Jesus Cristo, tanto assim que é referida exatamente com a mesma formulação, por dois evangelistas, S. Lucas e S. Mateus. Tem causado polémica, ao longo dos tempos e alguma perplexidade, sobretudo, nos tempos modernos.
A primeira polémica ainda não resolvida tem a ver com o verdadeiro significado da palavra camelo. Aparentemente haverá uma clara incongruência dado que não se vislumbra qualquer relação entre o conhecido animal do deserto e o utensílio de costura. Há duas explicações, cada uma delas apelando para o significado de cada um dos intervenientes quer seja o camelo, quer seja a agulha. Na antiga Judéia haveria uma espécie de posto alfandegário, chamado Fundo da Agulha por onde os mercadores eram obrigados a passar com os seus camelos e cuja passagem, sendo obrigatória era difícil pois obrigava ao pagamento de pesados impostos. Outros, talvez com maior propriedade, asseguram que em hebraico a palavra camelo servia para designar não só o dromedário como igualmente uma corda grossa feita a partir do pelo deste animal.
A segunda controvérsia vem com o verdadeiro significado da declaração do Messias. Por que razão haveriam de ser excluídos os ricos e amaldiçoada a riqueza? Cristo foi, contrariamente aos profetas judeus, um integrador, alargando a todos os povos a benção divina e o acesso à salvação que até ali estavam reservadas ao eleito povo judeu. Não faz sentido vedá-las a uma determinada faixa humana quando a Sua mensagem se estendia a todos, mesmo aos proscritos pelas antigas Escrituras. Por outro lado o combate à pobreza passa também, sobretudo nos tempos modernos, como muito bem tem sido demonstrado, pelo aumento da riqueza. Como poderia o Nazareno excomungar este caminho que proporcionava aos homens o bem estar que a Sua mensagem almejava?  
A melhor explicação dá-no-la Yuval Noah Harari no seu fabuloso livro Sapiens.  O professor israelita lembra-nos que durante milhares de anos a riqueza mundial no seu todo era estática. Não crescia, ao contrário do que se passa atualmente. Isso explica a reprovação divina pois assim sendo o aumento da riqueza de uns dever-se-ia à diminuição da riqueza de outros, por usurpação, roubo ou extorsão. Coisa que não acontece atualmente por causa do enorme aumento do crédito bancário que se baseia na confiança no futuro e que ilustra com uma pequena história que a seguir relatarei sucintamente, para voltar a ela numa próxima crónica.
São três os personagens, para simplificar: O empreiteiro António, o banqueiro Aníbal e o empreendedor Abel. Fruto de uma carreira bem sucedida, António amealhou um milhão de euros que depositou no banco do Aníbal. Este, para o fazer render, já que esse é o seu negócio, emprestou um mihão de euros ao Abel, para fazer uma fábrica. O Abel recebeu o empréstimo e contratou o António para lhe construir a fábrica e, acabado o trabalho, pagou-lhe. O António recebeu e depositou o montante no banco do Aníbal. A sua conta passou a ter o valor de dois milhões de euros. Contudo, no banco só há um milhão. Este mecanismo proporcionou a multiplicação da riqueza “disponível”!
No meu próximo texto darei continuidade a este tema!