O dever de lembrar

A lembrança é figura de estilo quando não cumpre o dever de lembrar. Escrever no Mensageiro obriga-me a quando teço um artigo ou uma crónica nunca por nunca esquecer a sua génese matricial a obrigar-me a mesmo na abordagem de temas leves, até cómicos, a tê-la em conta, sem esquecer os vigamentos que lhe dão sentido e corpo. No entanto, o dever de lembrar é um dever eivado de presunção e, presunção e água benta cada qual toma a que quer refere o anexim.
Nos últimos dias recordámos, lembrámos o ocorrido no dia 25 de Abril de 1974, fizemo-lo retirando do bornal da memória coisas e loisas a causarem-nos alegria, entusiasmo, mágoa e vergonha. Falarmos das consideradas boas solta as línguas, recordar as más trava-as. Ora, a prevalência maniqueísta na abordagem ao movimento militar, suas causas e consequências conduz à vesguice e consequente distorção dos factos. Mesmo no tocante à Igreja Católica.
A ligação de parte significativa da Igreja ao salazarismo está amplamente documentada e demonstrada, centenas de obras apontam e aprontam elementos constitutivos da destra e igual tomada de posições, no entanto, mesmo nos alvores da Ditadura de Salazar várias figuras de relevo impulsionadas por anónimos mas resolutos católicos opuseram-se ao autoritarismo emergente sendo objecto de perseguições e dura repressão. Dou apenas um exemplo: o Padre Abel Varzim.
Sim, tenho o dever de lembrar o Padre Telmo Ferraz, nosso conterrâneo de Bruçó, amigo dos pobres, benfeitor de crianças desvalidas, defensor dos direitos dos fracos e humilhados, sacerdote devotado aos ideais defendidos pelo grande impulsionador da Acção Católica, estrénuo activista social e sindical, não por acaso foi director do jornal O Trabalhador, em pleno auge do Estado Novo
Não creio necessário divulgar a causa de nutrir vincada admiração pelo Padre Abel Varzim, cuja vocação sacerdotal principiou no Liceu de Braga, o Seminário estava encerrado sequência da implantação da República (primeira amostra da vesguice ideológica), tendo posteriormente decorrido de forma normal. No entanto, logo deu nas vistas dada a inteligência manifestada no entendimento das causas complexas, já Padre esteve na diocese de Beja, posteriormente doutorou-se em Lovaina, consolidou a constância eclesial a favor dos desgraçados rurais e urbanos convivendo e aprendendo com eminentes figuras da Igreja.
Pode-se dizer e provar a semelhança de vivências de muitos outros padres em circunstâncias adversas, só que o dever de lembra leva-me a recordar o drama deste Padre, no início do seu múnus apoiou e colaborou na doutrinação do regime saído da Ditadura Militar, não tardou a perceber o âmago do Estado Novo, porém o desígnio de defender os humilhados e ofendidos impedia-o de exilar-se evitando as humilhações de múltiplas expressões. Preferiu suportar as perseguições, preferiu sofrer o opróbrio, preferiu morrer lentamente. Amargurado. Nestes dias de evocação do acto crucial da instauração da liberdade, parece-me trazer a terreiro um exemplo de firmeza contra a opressão dessa mesma liberdade.
Porque…temos o dever de lembrar