O Garrote…

 
E cá estou, de regresso, voltando ao tema, ao que me sufoca, triste com a esquerda pela qual suspirei. Vejo-me lá longe, muito para trás, há quarenta e cinco anos, correndo, em fuga, voando pelos Clérigos rumo à Liberdade, a da praça, sugado pela Livraria Figueirinhas, acolhido em desespero. O tanque da polícia, o que esguichava tinta azul, passou num ápice procurando incautos, desprevenidos. Nós, os de Economia, os rebeldes do sótão Universitário, ali defronte dos Leões, acompanhávamos sempre a onda, a crista era nossa, a vaga seria do povo. Um ano depois, em Abril de setenta e quatro, eis-nos na rua, colhendo o fruto que ajudamos a plantar. Saboreei o momento como uma criança que devora um gelado, deixei-me ir na corrente, misturei-me no delírio, cantei Grândola em todos os becos e vielas do Porto que despertava.
Porque o facilitismo, apanágio de uma esquerda que nunca entendi, invadia o espaço estudantil, igualando o diferente, abocanhando o mérito, despedaçando o esforço dos que querem vencer, interrompi os estudos já no inicio do penúltimo ano da licenciatura, rumei ao Alentejo profundo, ali para o Redondo que não esqueço. Conheci os cantes, as violas, as guitarradas, os Salomés, ondulei nas cearas que dão de comer, escutei ventos e pássaros, melodias que me acompanham nas horas do recordar. Interessei-me pelo suor dos ultrajados, dos pregados ao chão, mas também confortei espoliados, donos por direito do que seu era. Mas foram as crianças que ajudei a crescer, o empurrão para o em frente.
De novo na cidade, no coração da democracia, após licenciatura, tropecei no país real, na luta do dia a dia. Nestas quatro dezenas de anos, esgotei-me ansiando pela boa nova, que o país rumaria ao encontro do sonho agigantado lá na minha adolescência. Pensava eu, bem estribado nas forças que me circulavam nas veias, pensadas inesgotáveis, que sim, de mãos dadas, bem unidos, conseguiríamos a liberdade pois que, sem ela, jamais será possível diminuir o fosso que potencia uma justa, mas impossível igualdade plena.
Como se pode confiar numa esquerda que, apesar de ter combatido o ditador Salazar, mantém silêncio sibilino acerca de horrores sanguinários em países ditos socialistas escondidos no vergonhoso esmagamento de qualquer opositor, a milhas do nosso de Santa Comba Dão?
Como se pode confiar numa esquerda que apoia Corporações, com usufruto vitalício de direitos adquiridos hoje inqualificáveis, desde os tempos do embuste Cavaco, em detrimento da maioria em sofrimento desde Abril?
Como foi possível regredir, cavando o fosso, para horários de 35 horas unicamente para uma parte dos portugueses?
Hoje vemos a esquerda que resta, navegando à vista, bolinando, colhendo o que semeou, desviando-se dos ultrajes das classes mais que favorecidas.
O Governo sufoca, o povo espera, há que esbracejar, há que não ceder à força corporativa que lentamente nos aperta O Garrote