Portugal Escaleno….

Nas profundezas da memória, sugado num intemporal túnel de quarenta anos, esvai-se um sonho. As referências, balizas do caminhar, são guias que acalentam, ajudas no atravessar da vida, estabilizadores de equilíbrio. O tempo que por nós passa, varinha de condão, é foice de dois gumes, atesta o continuar, mas lentamente retira-nos as ilusões que vão caindo, os quereres que se furtaram, as amizades que, partindo, nos deixaram sós.
Vai longe Abril, saudades da juventude, do pensar imortal, da força inesgotável pelo querer. Quanto mais o regime oprimia mais se agigantava o bater do pé, as tertúlias do contra corriam nas sombras, a afronta subia a adrenalina, as gerações confrontavam-se, os humores familiares oscilavam entre os afagos e a incredulidade. No ar sopravam as novas, a ansia da mudança espreitava em todas as esquinas. E Depois do Adeus disparou o tiro de arranque, Grândola ecoava e nós, no leito, deixávamos sonhar a mente lá nos mundos do imaginário. A loucura, sorrateira, calcorreava as ruas.
No acordar daquela madrugada o espanto voou alto, as faces avermelharam, os corações abriram, o ar soprou e o grito de união eclodiu de norte a sul, o povo deu o braço dado, rodopiou, dançou no meio das espingardas, os cravos transformaram Portugal num jardim que invejou o mundo, a revolução avançava esquecendo as balas nos armazéns do passado.
A reorganização social foi debate sem fim, chegavam-se à frente lideres genuínos, de integridade blindada, mas as bactérias instalavam-se, ocupando sorrateiramente as cadeiras do poder. O tempo parou, pois, a discussão viraria a página, a espera de quarenta anos teria de valer a pena, perfilavam-se as inseparáveis irmãs, liberdade, fraternidade e igualdade.
Mas, há sempre um mas, as bactérias instaladas fervilhavam em nichos estratégicos, os sindicatos baralhavam, os trabalhadores separaram-se em campos antagónicos, do publico e privado. A galinha sindical chocava sectariamente, os ovos germinavam apenas num dos campos e foram quarenta anos de apunhalares, a igualdade jaz moribunda, em agonia democrática. A reposição das trinta e cinco horas para os funcionários do Estado é afronta à memória dos que partiram e aos que no privado caminham exaustos no alcance da meta.
A variedade despudorada na atribuição de Pensões e Reformas avilta Abril, esmaga o sonho, apetece rodar os ponteiros e colocar o relógio a zeros. Fica a desilusão Depois do Adeus, de Grândola deixaram-se de ouvir o bater de botas cardadas no piso que dói.
Olhando para trás, vislumbrando o futuro, esperemos que o além não viva apenas no sonho.
Para já, de qualquer ângulo ou lado, é com angustia que observo meu Portugal Escaleno…