Eleições Presidenciais 2026 100 anos depois da Ditadura Militar de 1926
1 - No passado dia 18, realizaram-se as eleições para a Presidência da República. Curiosamente, no próximo mês de Maio, completam-se 100 anos da Ditadura Militar que derrubou a I República e instalou um regime que durou 48 anos. E a curiosidade aumenta ao verificarmos que, na 2ª volta das eleições Presidenciais do passado dia 18, um dos candidatos que passou à 2ª volta é um suposto admirador de Salazar, André Ventura, que, há relativamente pouco tempo, invocou a necessidade de 3 Salazares para salvar Portugal.
Em função destas duas coincidências, vou recordar, aos leitores do Mensageiro de Bragança, como é que Salazar assumiu a Ditadura Militar como sua e fez com que a mesma atormentasse o país durante 48 anos.
2 – Os militares do 28 de Maio de 1926 depressa deram sinais de incapacidade para resolver os problemas que estiveram na base da sua sublevação e subsequente instauração da Ditadura. Logo em Maio de 1926, foram chamar Salazar para ministro das Finanças. Na altura, ele ainda foi até Lisboa para tomar posse. No entanto, só esteve 5 dias em Lisboa, findos os quais regressou a Coimbra, sem ter assumido quaisquer funções no governo militar. Quando, porém, em 1928, voltou a ser convidado para o governo, aceitou, porque, neste segundo convite, os militares submeteram-se às exigências de Salazar, que ele já explicara em 1926:
«É preciso notar que a generalidade das pessoas que me querem no Ministério das Finanças me querem apenas como um técnico que conserta uma cadeira rota e não como um político. […] Jogo tudo por tudo e exijo condições de máxima liberdade de acção, de escolha e de direcção».
Não restam dúvidas: Salazar só aceitaria ir para ministro das Finanças se todos os ministros do governo lhe obedecessem. E foi só isso que mudou no convite de 1926 para o convite de 1928.
3 - Perante estes factos, impõe-se uma pergunta: porque é que Salazar queria assim tanto poder, ou seja, o poder todo? A resposta tem que se encontrar procurando conhecer a personalidade de Salazar e aquilo que o motivava para se dedicar à política. E foi o próprio Salazar que, ainda em Coimbra e antes da Ditadura Militar, afirmou: «Sinto que a minha vocação é a de ser primeiro-ministro de um rei absoluto». Aliás, ainda em Coimbra, o padre Mateo Crawley-Boeevey, seu guia espiritual e confessor, se lhe dirigia nestes termos: “A mim não me enganas. Por detrás desta frieza, há uma ambição insaciável. És um vulcão de ambições”.
Não podem restar dúvidas: a personalidade de Salazar era duma sede insaciável de poder, sem limites de qualquer espécie. Em Portugal, todos os portugueses – desde os militares aos demais cidadãos – teriam que obedecer-lhe, sem que ele alguma vez precisasse de se justificar em qualquer acto eleitoral. Por isso, ele esteve 40 anos à frente dos destinos do país, sem se ter submetido a eleições uma única vez.
4 – Perante estes factos, são puro oportunismo político os esforços do André Ventura em tentar basear a política salazarista nos princípios que o próprio Salazar designava por «grandes certezas do humanismo português: Deus, Pátria, Família, Autoridade, Trabalho, Ordem e Paz Social». Na verdade, de todas estas supostas «certezas», a única que interessava a Salazar era a «Autoridade» se e quando exercida por ele.
5 - Em síntese, a democracia tem esta virtude, que é também um defeito: até os seus inimigos têm o direito de se servir dela para a combater, como fazem todos os “cheganos” e todos os que não cumprem os seus deveres e não respeitam os direitos dos outros. Só que, se e quando eles chegarem ao poder, ninguém fale em direitos, porque só o «cabeça de cartaz» e quem lhe beijar os sapatos é que os terá. Todos os outros terão apenas deveres, nomeadamente o dever de andarem sempre curvados diante dele e das suas fotos espalhadas pelas escolas e repartições públicas, como acontecia no tempo de Salazar.
