Ricardo Mota

Os de Umbigo Inchado…

Neste louco momento pandémico, neste horrível atravessar sinuoso do desconhecido, nesta ditadura do silêncio e quietude que encapsulou a humanidade, colo-me à janela no observar do mundo. Daqui, por detrás do vidro, confinado, cumpridor, respeitando a virulência da covid19, tento antever a nova normalidade, o que nos espera, o que aí vem.


Ordem na mesa

E eis que nos confins da China, germinando dum cocktail da natureza, emerge monstro devorador que, usando os jovens, filhos e netos, os arremessa para fazer sucumbir os pais e avós, segunda e terceira geração contra os idosos que os geraram. Este vírus, malévolo e inteligente, sem que seus soldados se apercebam, os jovens, carrega-os de balas mortíferas, espalha-os socialmente com um único fito, atingir os mais fracos, os vulneráveis.


O Rei Dormente…

Não num Conto de Fadas, mas num real Reino, dos que antigamente reinavam, algo de gravoso acontecia trazendo o povo angustiado. O Rei, de virilidade insuspeitada, fez pela sucessão mas, destino atroz, todos os nove filhos morreram antes dele. Fado cruel, o último vivo, homem e herdeiro do trono, faleceu após plantar semente na barriga da princesa, sua esposa. Mas os céus e os ventos estavam todos contra este pequeno reino bordejado de praias oceânicas viradas para outros mundos.


Pragança…

Sem êxito, tento passar a mensagem que o segredo da elevação social passará simplesmente pela humildade. Qualquer que seja a profissão, pedreiro, carpinteiro, médico, economista, caixa de supermercado, se não de braço dado com a humildade, o respeito da sociedade esvai-se no efémero.
A cultura, a formação, o poder económico, desligados desse nobre sentimento, não colocarão, por si só, os personagens no Olimpo, no sítio onde mora a posteridade.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Dado....

Diz o povo que a cavalo “dado” não se olha o dente. Na História que vou contar, nada foi de graça, foi hecatombe orçamental. Naqueles tempos, nos idos anos de 1400, no reinado do patriarca da Ínclita Geração, El-Rei D. João I, Portugal atravessa pequena crise económica e o monarca, em segredo, congemina desviar o tráfego marítimo do Mediterrâneo Ocidental para o portentoso estuário do Tejo, de barriga aberta para o receber.


Casa de Campo

Tal como outrora a melancolia, com pesos e medidas calibrados, é elixir revigorante, quando a mente a procura, a deseja. Sinto-lhe a falta nos momentos em que a angústia me abraça e o cansaço me tolhe nos entretantos citadinos, perco-me por entre as gentes automatizadas que circulam alheadas, isoladas, com origens e destinos desenhados, pré-concebidos. Nesse sufoco é hora de partir, a chegada espera-me, lá nos sítios da quietude.