A opinião de ...

Voto do povo, o grande Covid da Democracia

Para pouco mais servindo do que para cumprir calendário, o debate que antecedeu a votação na generalidade da proposta de orçamento do estado para 2021 veio, mais uma vez por a nu as fraquezas, para não dizer as misérias, da atividade parlamentar com que se vão ocupando os representantes do nosso povo, por nós instalados na magnificência do palácio de S. Bento, a casa da nossa democracia.
Do confrangedor vazio de ideias que caraterizou os fastidiosos dias de debates que antecederam a votação , mais que muitos outros, destaco, pela negativa o diálogo entre a líder do BE e a líder da bancada do PS, tanto pelo nulo interesse do que estava em causa, como pela pobreza franciscana da argumentação aduzida e pela maneira enfatuada como foi conduzido pelas duas senhoras deputadas. Se alguém que pretendesse fazer a história da atividade parlamentar da presente legislatura, dentre tantas intervenções completamente descontextualizadas, inúteis, e demagógicas, certamente que teria nele o exemplo perfeito de como não se deve construir uma argumentação, sem qualquer nexo nem suporte, e muito menos, defende-la perante o país que os elegeu e que, “se se portarem bem”, para além de outras coisas muito agradáveis, até poderão ter garantidos os seus empregos,(e que empregos!), se não para a vida toda, pelo menos para os próximos três anos.
Entretanto, esse tal COVID alastra impune por toda a parte e, como se não fosse nada com ninguém e tudo passasse ao lado, o país continua a bater recordes cada vez mais assustadores. Para análise e reflecção, sobre a progressão da pandemia, é importante lembrar que, enquanto no dia 30 do passado mês de abril se contavam no país 989 mortos, 1514 recuperados e 25. 045 infetados, o mês de outubro, que no início registava 1.977 mortos, 48.937 recuperados e 76.396 infetados, depois da pior semana desde o princípio da pandemia, terminou com os números preocupantes de 2.507 mortos, 80. 280 recuperados e 141.279 infetados. Entretanto, com recordes diários de 40 mortos, 4656 infetados, 1927 internados, 275 dos quais em UCI, crianças e doentes graves com idades entre os 20 e os 40 anos, de longe os piores números desde que este vírus começou a destruir vidas, em Portugal, quando muitos países já avançaram com medidas profiláticas bem mais rigorosas, agora que urgia agir depressa e bem em muitas áreas, o governo ainda só está “a ponderar só decretar o recolher obrigatório” lá para dezembro para, imagine-se, poder haver Natal.
Muito provavelmente, e Deus queira que assim seja, isto ainda não será o fim mas, a continuar com esta política de correr sempre atrás do prejuízo, poderá já ser tarde quando quisermos parar, vendo então como a obsessão pela conquista do voto do povo, o suporte e a identidade da verdadeira democracia, para depois ser utilizado apenas em função de interesses individuais ou de grupo, e não em prol do bem comum de quem lho confiou, acabará rapidamente por se transformar no perigoso COVID da verdadeira democracia.

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