Quando o futuro nos bate à porta
Durante anos fomos sendo avisados que a temperatura do planeta estava a subir e que isso traria consequências em termos de clima.
Este milénio começou com um inverno especialmente chuvoso que conduziu a uma das maiores tragédias ocorridas no nosso país, a queda da ponte de Entre os Rios e a morte de quase 70 pessoas que regressavam a casa após uma excursão ao nordeste Transmontano para as amendoeiras em flor.
Desde então, os invernos chuvosos têm sido cada vez menos frequentes, contrastando com períodos de seca mais prolongados e com temperaturas mais elevadas (em média, cerca de um grau e meio), que estão a interferir, por exemplo, com a cota a que se fixava o castanheiro, por exemplo.
Mas os invernos chuvosos, apesar de mais raros, não desapareceram. A questão é que a intensidade da chuva é cada vez maior e as cidades e as instituições públicas estão cada vez menos preparadas para acolher as enormes quantidades que caem em cada vez menos espaço temporal.
A somar a isso, tivemos, desta vez, um fenómeno de vento extremo como nunca tinha acontecido em Portugal, com rajadas a rondar os 200 quilómetros por hora.
As estruturas não estão preparadas para acomodar tal violência, como ficou comprovado até pela quebra de quilómetros e quilómetros de pinhal como se de simples fósforos se tratasse.
Mas se pouco havia a fazer perante a violência do embate (apesar de até haver previsçoes a serem partilhadas pelas redes sociais, que pareceram ser pouco levadas a sério pelas autoridades de proteção), a forma como se reagiu à tragédia é que deixou muito a desejar.
Mais uma vez, Portugal reergue-se à custa do voluntarismo, voluntariado e solidariedade da população, enquanto as instituições que gerem o país e a proteção dos cidadãos ainda andavam às voltas para perceber o que tinha acontecido.
O pedido de quatro militares (sim, quatro) para ajudar as populações de Leiria a seguir é simplesmente ridículo.
É em alturas destas que a presença do Estado no terreno deve ser forte e decidida.
A proteção civil não se pode compadecer de corporações voluntárias. o país exige mais organização e preparação. O Exército, sobretudo as unidades de engenharia e logística, tem de ser envolvido desde a primeira fase de uma emergência destas.
O problema é que há demasiadas quintas e demasiada gente a não querer que outros venham mandar no seu quintal.
É em alturas destas que se sente a falta de estruturas verticais de hierarquia e comando, como acontecia com os Governos Civis, que representavam a presença da autoridade do Estado pelo território e serviam de força congregadora de todas as demais entidades, das forças de segurança à proteção civil.
Também a presença do Exército em pontos chave do território para acorrerem às populações neste tipo de ocorrências deveria ser repensada. O futuro bate-nos à porta.
