Ricardo Mota

Pragança…

Sem êxito, tento passar a mensagem que o segredo da elevação social passará simplesmente pela humildade. Qualquer que seja a profissão, pedreiro, carpinteiro, médico, economista, caixa de supermercado, se não de braço dado com a humildade, o respeito da sociedade esvai-se no efémero.
A cultura, a formação, o poder económico, desligados desse nobre sentimento, não colocarão, por si só, os personagens no Olimpo, no sítio onde mora a posteridade.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Dado....

Diz o povo que a cavalo “dado” não se olha o dente. Na História que vou contar, nada foi de graça, foi hecatombe orçamental. Naqueles tempos, nos idos anos de 1400, no reinado do patriarca da Ínclita Geração, El-Rei D. João I, Portugal atravessa pequena crise económica e o monarca, em segredo, congemina desviar o tráfego marítimo do Mediterrâneo Ocidental para o portentoso estuário do Tejo, de barriga aberta para o receber.


Casa de Campo

Tal como outrora a melancolia, com pesos e medidas calibrados, é elixir revigorante, quando a mente a procura, a deseja. Sinto-lhe a falta nos momentos em que a angústia me abraça e o cansaço me tolhe nos entretantos citadinos, perco-me por entre as gentes automatizadas que circulam alheadas, isoladas, com origens e destinos desenhados, pré-concebidos. Nesse sufoco é hora de partir, a chegada espera-me, lá nos sítios da quietude.


Cesariana…

Para escrever um texto, qualquer que seja, a inspiração tem de andar por perto pois que o tema, farejado ou não, teve forçosamente de passar rente aos sensores, olhos, ouvidos e nariz, de centralina ao leme, a mente, bem oleada por sensibilidade própria.


Prendas de Natal…

O Sol vai baixo e os raios furam as nuvens frias e espessas que abundam, por esta altura, nesta banda, dá gosto observar, bem protegido por agasalhos convenientes, os vultos fantasmagóricos que costumam habitar estes céus. Os traços vermelho-fogo, à mistura com pinceladas de ardósia escura são majestáticos quadros colocados ao acaso nesta intemporal galeria.


Nó, em fim de linha…

Por ali, naquele sítio, de barulho intenso, vive a azáfama diária do boliço citadino, dos da cidade e dos viajantes que neste ponto se cruzam. O rio Tejo, exausto da caminhada, agachando-se sob a passagem da última ponte, na antevisão do aconchego do mar que o espera num afetuoso abraço de delta, com o farol do Bugio como testemunha, mostra-nos sempre a quietude, o sereno, a paz, e a feliz possibilidade do estender da vista.