A Segunda Pele de Balbina Mendes
Adolfo Correia da Rocha, Camilo de Mendonça, Adriano Moreira, Graça Morais, Cândida Florinda Ferreira, Beatriz Arnut, todos transmontanos nas suas raízes e no seu húmus. Não temos que lhes saber os nomes nem conhecer em pormenor a sua vida mas podemos ver a sua segunda pele: a de Miguel Torga, nas suas linhas; a do Engenheiro Camilo, no masterplan do Nordeste; a do Ministro de Salazar, na biblioteca de Bragança; a de Graça Morais, nas cores e traços iniludíveis do CAC de Bragança; a de Cândida Florinda Ferreira, numa vida discreta e cheia de sabedoria, de alguém injustiçada que assinava os seus poemas como “Ninguém” e foi uma investigadora, pedagoga e escritora; Beatriz Arnut, uma autora de textos sérios e de quadras populares de manjericos, de literatura mais robusta e dum prémio para promoção de raparigas. Como transmontano, começo por referir transmontanos, mas não é exclusivo dos transmontanos, é inerente aos seres humanos dar sempre um passo de transcendência cuja metamorfose começa ou acaba numa segunda pele. Estes, um escassíssimo exemplo mais exuberante, deram o passo para a terem especial. E de alguns, Balbina Mendes já a pintou.
Balbina Mendes detecta-a, capta-a, interpreta-a, constrói-a. A Segunda Pele. E muito mais do que tudo isso.
No Sábado, dia 7 de Fevereiro, pelas três da tarde, no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros, será inaugurada uma exposição, que durará até ao dia 8 de Março, A SEGUNDA PELE. A curadoria da exposição está a cargo de Ana Rita Ribeiro. A inauguração será um evento cultural com poesia em português e mirandês, com música de Diogo Mendes e incluirá, além duma breve conferência, uma inevitável cavaqueira sobre arte e literatura, o mesmo será dizer, uma belíssima tarde, mesmo que chova, a lembrar-nos que em Trás-os-Montes há muito mais vida do que a política e há muito mais substância e génio – ou seja, civilização – do que quaisquer rótulos que nos queiram pôr. Aliás, poderão sempre pôr-nos os rótulos que quiserem: nós, transmontanos, sabemos bem lidar com eles com indiferença ou um sacudir de ombros, porque sabemos que temos uma segunda pele.
Não vamos divagar aqui o que divagaremos no sábado, mas há algo importante para que devemos desde já chamar a atenção. Embora nem fosse preciso, porque a maneira brilhante como o livro se encontra composto e a forma directa como Balbina Mendes nos interpela na sua pintura, que estará exposta, no-lo tornam patente à primeira vista: é que não se trata duma segunda pele do corpo, como se fosse um vestido ou despido de passadeira vermelha ou uma ecdise como a dalguns répteis que a deixam para trás para poderem crescer. Trata-se de que é dos olhos que parte toda a tecedura dessa segunda pele artística. Não é das mãos, nem dos pés, nem de qualquer outra parte do corpo. É da cabeça, onde se pensa e cria, onde se existe, de onde se perscruta e para onde se perscruta o abismo capaz da nossa vertigem e de nos fazer voar para o sonho que nos impele. Da cara, a nossa identidade.
Balbina Mendes não é uma pintora a construir uma ficção de si própria mas a libertar-se da sua densidade mirandesa e transmontana, a transferi-la para todo o mundo. O sentimento de amor e fuga à terra dos transmontanos, a sua ânsia da vertigem da liberdade, o seu uso da máscara para fascinar, ainda que de forma arcana e rude, mas não para esconder, com uma paleta caleidoscópica que faz o efeito dum shot, tudo isso Balbina Mendes mistura para nós, sempre distraídos nas nossas vidas, e nos pincela a lembrar-nos, de forma genial, que todos temos uma Segunda Pele. Saibamos reconhecê-la – e usá-la bem!
