A opinião de ...

O Ciclo Autárquico 2025-2029: O Orçamento da Amnésia e a Fragilidade de uma Minoria

Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que “promessas leva-as o vento, mas o juízo as traz de volta”.
Em Bragança, no que toca ao Orçamento Municipal (OM) e às Grandes Opções do Plano (GOP) para 2026, o vento arredou longe as promessas, mas o juízo não parece decidido a fazê-las voltar!
No OE e GOP a 1ª mensagem é clara: gasta-se cada vez mais para manter a máquina a funcionar e investe-se menos no futuro do concelho:
Um aumento de 10,03% (€3.295.965,00) nas despesas de funcionamento
Um aumento de 10,75% (€16.485.420,00) nas despesas de pessoal
Uma redução drástica de 15,29% (€4.338.965,00) no investimento real.
Sobra pouco para a inovação, investimento e coesão que a propaganda apregoa.
Mas, o mais intrigante e surpreendente é o estado de “Amnésia” que acometeu a liderança do executivo municipal, e, diga-se, tantos por aí….
Em plena reunião de câmara, proclamou-se que “nunca se fizeram promessas” e que não houve sequer um “programa eleitoral”.
Pelos vistos, e na campanha eleitoral, os folhetos que inundaram as caixas de correio, os debates e sessões públicas de esclarecimento, e, na rua, as conversas com as pessoas, foram apenas alucinações coletivas, ou sonhos vãos em noite de verão….
Negar o programa eleitoral e os seus compromissos é negar o pacto social celebrado com os cidadãos; é dar o dito por não dito, com uma leveza que assusta.
Eis, a título de exemplo, algumas promessas esquecidas:
O Complexo Desportivo Multimodal que acolheria as várias modalidades do desporto, é esquecido e cede lugar à Academia e Centro de Treinos de Futebol.
Idem, quanto ao Pavilhão Multiusos.
Assumiu-se a relocalização/nova ETAR em Bragança, as mini-ETARS e o saneamento integral nas aldeias. Mas o que temos? Apenas 25.000€ para um ‘estudo de ampliação da ETAR em Samil e obras de manutenção para Gimonde, Aveleda, Vilarinho e Quintanilha.
Onde está o Novo Mercado na Praça Camões? A verba para a Praça Camões é apenas para ‘Regeneração Urbana’: pavimentos, luzes, obras de conservação.
Na habitação Social prevê-se, para fogos, €190.000,00, valor exíguo para Bragança.
Prometeram-se 40 novas habitações a custos controlados até 2029.
Porém, no OM, não existe dotação financeira para tal, apenas verbas para o “Housing First” (2 apartamentos, só).
Foi prometido um Regulamento Municipal para a transferência de apoios financeiros para as Juntas de Freguesia, com critérios objetivos e transparentes.
O OM e GOP nem o menciona, sequer.
A incoerência atinge o seu auge no saneamento, quando em campanha, se vociferava que era “impensável e intolerável”, em pleno séc. XXI a falta de cobertura de rede total.
Agora, sentados na cadeira da governação, a música é outra: a conta, (estima-se) de 35 milhões de euros, tornou-se subitamente “incomportável”.
Prometer tudo para agora concluir que “não se pode” é um exercício de farisaísmo que Bragança não merece.
Debilidade política que ficou bem espelhada na votação do OM e GOP na Assembleia Municipal: 29 votos a favor e 47 abstenções, num universo de 76 representantes.
O Zé Povo fez um manguito!!!! Apenas uma minoria caucionou expressamente este orçamento.
E mesmo para garantir este magro resultado, soube-se (relembre-se que em Bragança as paredes têm ouvidos e os corredores memórias) de démarches intensas e “pesadas” junto de muitos Presidentes de Junta, mas cuja resposta a votação não deixou dúvidas!
No fim, o que mais inquieta é a máscara e o silêncio quase absoluto das forças vivas da cidade.
Parece reinar uma amnésia coletiva e uma falta de espinha dorsal para confrontar este “dito por não dito”.
Bragança merecia mais, e não mais do mesmo!
Não merecia, sobretudo, que fosse rasgado o contrato assinado nas urnas.
Enquanto houver quem sofra de amnésia, haverá quem tenha o dever de recordar.

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