A opinião de ...

O país é todo igual ou Lisboa é mais igual do que os outros?

A meio da semana passada, a notícia caiu em Vimioso que nem uma bomba. Um despacho conjunto dos Ministérios da Administração Interna e da Agricultura proibia, entre outras coisas, fogo de artifício em festas, utilização de máquinas em atividades agrícolas ou a circulação e permanência em caminhos florestais e rurais.
Basicamente, era um decreto que paralisava o país fora do alcatrão, que não abunda no Nordeste Transmontano. O ridículo chega ao cúmulo de pôr em causa a fé das pessoas. Por exemplo, durante o fim de semana, centenas, se não milhares, de peregrinos caminharam em direção à Senhora da Serra. A larga maioria usou caminhos rurais, infringindo a lei.
Em Vimioso, deveria acontecer a sétima edição do King of Portugal, uma prova internacional que reunia 67 equipas vindas de todo o mundo, de outros continentes, e que tem um peso enorme na economia local. Houve encomendas de carne que foram enviadas para trás, 200 quilos de queijo que ficaram sem utilização, 30 mil euros de inscrições que foram devolvidos às equipas mas quase dez mil euros em limpeza de percurso que não tiveram utilidade.
Os prejuízos são incontáveis, quer para a economia do concelho, quer para a imagem do próprio país.
Mas não foi caso único. É que o decreto abrangia todo o país.
O rali Terras d’Aboboreira, pontuável para o Campeonato de Portugal de Ralis, viu a sua maior especial, no Marão, cancelada pelo mesmo motivo, apesar de até se disputar em alcatrão. O resto da prova pôde desenrolar-se por isso mesmo, ser disputada em estradas normais, alcatroadas.
O distrito de Vila Real, tal como o de Bragança, estavam em alerta vermelho.
Mas, em Beja, distrito que até estava em alerta laranja, foi também cancelado um evento, uma Baja de todo-o-terreno, extra-campeonato, mas organizada sob a égide das Federações de Motociclismo de Portugal e a de Automobilismo e Karting. A organização bem argumentou mas não houve outra hipótese que não cancelar a prova, sexta-feira à noite. Tal como em Vimioso, com todas as autorizações e licenças em dia.
Entretanto, em Lisboa assinalava-se o 15.º aniversário do Rock in Rio. A data, redonda e emblemática de um evento representativo para o país, mereceu as honras de espetáculo de fogo de artifício. Um grandioso espetáculo de fogo de artifício.
Mas o decreto do Governo, que vigorou até terça-feira, abrangia todo o país. Todo? Não. Uma capital resistiu, ainda e sempre, ao invasor da província. O distrito de Lisboa estava em alerta laranja (tal como o de Beja, recorda-se?), e, por isso, lá houve foguetes para festejar o Rock in Rio.
“A Associação Nacional de Empresas de Produtos Explosivos (ANEPE) denunciou esta segunda-feira uma “onda de indignação” nas redes sociais devido à dualidade de critérios na aplicação da proibição de lançamento de fogo-de-artifício decretado pelo Governo. Ministério explica que proibição só se aplica a distritos que estão sob alerta vermelho, o que exclui Lisboa.
“Afinal, não é para todos a proibição de lançamento de fogo-de-artifício decretada pelo Governo como uma suposta medida de segurança devido ao calor e consequente risco de incêndio. Houve exceções nos últimos dias e, esses casos, têm sido amplamente discutidos nas redes sociais, onde se gerou uma onda de indignação por parte das populações, visitantes, promotores, autarcas e empresas de pirotecnia”, referiu, em comunicado.” Este é o excerto de uma notícia do Público, em que se podia ler ainda que “a ANEPE salientou que o espetáculo de pirotecnia de comemoração dos 15 anos do Rock in Rio em Lisboa, realizado no último fim-de-semana, perto do rio Tejo, foi autorizado “apesar de em outros concelhos e distritos do país terem sido proibidos eventos com as mesmas características, com fogo-de-artifício que também iria ser lançado em zonas fluviais e meio urbano”.”
E pensar que ao autarca de Vimioso lhe foi dito por um membro do Governo que não podia “haver exceções”.
Conclusão: Neste país, todos são iguais mas alguns são mais iguais do que outros.

Numa visita recente de um candidato às Legislativas de outubro, a comunicação social local procurou confirmar junto da respetiva assessora de imprensa se o dito candidato iria responder a perguntas sobre a região. “Não. Só fala de assuntos nacionais”, foi a resposta perentória. Mas o Nordeste Transmontano não faz parte do todo nacional? É que se a campanha é para falar só de assuntos que dizem respeito a Lisboa, porque não fazem só na capital a campanha? Poupavam o dinheiro das deslocações aos contribuintes e evitavam a “maçada” de ter de vir à província...
Resultado: afinal, até foi a comunicação social local a iniciar a ronda de perguntas. O respeitinho é muito bonito.

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