A opinião de ...

Orçamento do Estado - tudo, (e todos), por um prato de lentilhas!

Para fazer a síntese perfeita do que foi o longo, fastidioso e quase inútil processo de elaboração do Orçamento do estado para 2020, nada melhor que lembrar a história bíblica da venda do direito de primogenitura por um mísero prato de lentilhas, venda que, ao contrário do Orçamento, se outro mérito não teve, pelo menos terá servido para aconchegar a barriga do esfaimado vendedor.
É incompreensível que, na era do digital, se queimem mais de vinte e cinco por cento, (quatro meses) do tempo útil do primeiro ano duma nova legislatura, desperdicem muitos dos milhões do orçamentados da Assembleia da República, acabando por dar razão ao aforismo “ o que não custa a ganhar não custa a gastar”.
É fastidioso porque os senhores deputados e os senhores membros do governo não sabem, ou não lhes convém saber, que as pessoas estão saturadas de tanta demagogia e, (excluindo talvez as suas famílias), já ninguém tem pachorra para suportar as suas “brilhantíssimas” tiradas oratórias de tribunos de conveniência e de governantes de ocasião.
É inútil e lamentável que tanta gente durante tanto tempo gravite na órbita do processo da elaboração, apresentação, discussão e posterior aprovação do Orçamento do Estado, documento que apenas devia ser matriz reguladora da correta aplicação dos dinheiros públicos no interesse exclusivo da comunidade, dinheiros que, é bom lembrar, sai dos bolsos dos contribuinte, afinal dos nossos bolsos. Lamentavelmente, o que se passa é tudo menos isso e, é em inconfessáveis jogadas de bastidores, maratonas de discussões e negociatas feitas à socapa e pela calada da noite, longe de tudo e de todos, que se fabrica o orçamento, se compram e vendem primogenituras a troco de pratos de lentilhas, valorizadas de acordo com a interesse ocasional de cada negociador para conseguir os seus intentos, esquecendo-se todos que quando o povo lhes confiou os seus votos, os mandatou e, simultaneamente, os responsabilizou pela defesa dos seus legítimos interesses e inalienáveis direitos.
Aprovado por conveniência estratégica na generalidade, remendado, qual manta de retalhos, na especialidade e apadrinhado pelo Presidente da República, agora vão tentar apresenta-lo com o top dos orçamentos. Pura mentira porque, quem torto nasce, tarde ou nunca endireita, não esquecendo também que sobre ele pende sempre a tesoura implacável do inefável ministro das finanças, em última análise, o dono e senhor do “seu” orçamento.

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