A FORMA DA TERRA
Vergílio Taborda, no livro “Alto Trás-os-Montes – estudo geográfico” de 1932, a sua notável dissertação de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ensina-nos que esta unidade histórica a que se convencionou chamar Trás-os-Montes, desde cedo ofereceu uma fisionomia peculiar que a distingue das outras regiões de Portugal. Diz-nos o autor que, “mergulhado no isolamento das suas montanhas e vales profundos, privado de estradas e caminhos acessíveis (…), solo em regra pouco fértil, habitado por uma grei rural que, mantendo uma tradição comunalista vivaz (…), bastando-se a si próprio” 1.
Um dos aspectos mais significativos das povoações rurais da região é a sua ligação à forma da terra que deriva, em grande medida, do relevo e da presença da água, uma vez que a definição das linhas de festo e de talvegues está directamente relacionada com a matéria de que é feito o solo. Aqui, predominam terrenos de xisto e de granito, formações rochosas que, ao longo de milhares de anos, conformaram o território e a forma do homem o ocupar. Mais do que o seu reflexo directo na arquitectura local, como materiais de construção por excelência – de que falaremos num outro artigo - interessa analisar o modo como, a partir do relevo, as próprias povoações se foram distribuindo pelo território, sobretudo a partir da Idade Média.
A grande maioria da região faz parte da bacia hidrográfica do Douro, o que significa que é atravessada por vários tributários desse rio, formando uma rede de vales. Aos solos graníticos, mais permeáveis, que correspondem a zonas planas onde a água é drenada em ravinas estreitas e profundas – veja-se o caso do Planalto Mirandês – opõem-se as zonas de xisto, pouco permeáveis, onde a acção da água cria uma sucessão de montes. Ambas determinam paisagens muito distintas. No xisto, a acção da rede hidrográfica provoca o aparecimento de um mar de cabeços, a diferentes alturas.
No granito, a água penetra profundamente na rocha sem alterar a forma da superfície, criando vales escancarados com vertentes íngremes. O isolamento histórico e o regime agrário herdado desde tempos remotos, impuseram o agrupamento das casas no centro das unidades de exploração agrícola, feita do conjunto de pequenas parcelas que formam os limites da aldeia e se estendem à volta do casario. Este, por sua vez, localiza-se, invariavelmente, nas proximidades de uma ribeira, nascente, ou confluência de linhas de água, sobretudo nos pequenos vales mais afastados dos grandes rios, ou em zonas onde os vales se alargam. Consequentemente, a água adquiriu em muitas das aldeias, uma importância quase divina porque, perto da água, os solos são mais férteis - não raras vezes, associada à sua presença em fontes de mergulho, bicas ou tanques, surgem igrejas e capelas. É por essa razão que vemos um mosaico de parcelas que correspondem aos solos mais férteis – quintais, cortinhas e hortas – encostadas às linhas de água. À margem, recusando o protagonismo da linha da frente de rio ou ribeira, o casario organiza-se a partir da meia encosta para cima, em ruas e ruelas estreitas e sinuosas, que davam acesso às casas, pátios e eiras da aldeia, mas que acompanhavam, invariavelmente a topografia natural dos lugares. Deveremos ter presente que o transmontano sempre valorizou mais o campo do que o seu habitat – casa quanta baste, terra quanta vejas – mas, ao decidir onde e como construir a sua casa, o fez com o conhecimento ancestral de um processo de ocupação do território, como síntese de uma determinada realidade e, nessa medida, a casa e a povoação são a medida e o reflexo de uma identidade local. São reguladores, porque respeitadores, das linhas e dos sistemas estruturadores da morfologia do território e anunciam a capacidade do homem qualificar o seu habitat, privilegiando os interesses da comunidade . Vista aos olhos da actualidade, esta forma de pensar o território e a arquitectura, mais parece de um outro país, de tão distante. A forma das casas e das aldeias reproduz, de um modo quase mimético, a forma da terra porque, apesar de construídas individualmente e com os mesmos materiais, as próprias irregularidades do terreno e pequenas variações nas medidas padrão – dependentes da matéria-prima natural disponível que também apresenta variações – se traduzem num equilíbrio perfeito entre a unidade e a diversidade que enriquece a paisagem e tornam a arquitectura popular transmontana um património singular. Será necessário olhar prospectivamente para este modo de construir o território, como factor permanente e único, com capacidade de garantir sustentabilidade, identidade colectiva e que é determinante em qualquer estratégia de desenvolvimento que se pretenda empreender.
1. Taborda, Vergílio. Alto Trás os Montes – estudo geográfico, 2.ª ed. Livros Horizonte. Lisboa, 1987 (1.ª ed. 1932), p. 19.
