Armando Fernandes

 

 

A perigosa estupidez

Tratados sobre a estupidez há muitos, desde ensaios profundos, graves e reflectidos até aos jocosos e obscenos passando pelos de aforismos, citações e os escorados em romances, o monumental O Homem sem qualidades é paradigma disso mesmo, ou de índole filosófica, religiosa e sociológica. Se a estupidez individual assusta, a das multidões amedronta muito mais. O pensador Gustave le Bon (século XIX) em A Psicologia das Multidões explicita o tema e alude às consequências quando o poder da multidão mexe no pote do arbítrio, da demagogia e da exploração das desigualdades sociais.


A presunção da professora

Talvez porque estão na moda as máscaras, uma professora de Freixo a vendar aulas em Bragança, demonstrou a impassibilidade de máscara e conflito irreconciliável com o bom senso ao postar no Facebook jactâncias de vampe em plenitude no tocante a atributos de sedução sensual capazes de provocarem sedenta inveja em amigas e/ou conhecidas.


La donna é mobile

O Dr. Hernâni Dias no âmbito das suas responsabilidades políticas e sociais criticou o Secretário de Estado da Mobilidade porque este num alarde de prosápia ingente a quem não tomou chá em pequeno entendeu dar a conhecer a sua má educação e resolveu não comparecer as duas reuniões previamente marcadas por quem detém competência para o efeito a fim de ser planeada e discutida a estratégia a empregar no distrito contra a pandemia do vírus C-19.


Falar com amigos

O título da crónica parece ser retirado do livro do Tonecas uma figura desaparecida da cena portuguesa que eu ouvia deleitado num programa do Rádio Clube Português. O Tonecas nesse tempo só falava com amigos, aos inimigos votava desdém e procurava nem lhe pisar a sombra, pisar só lhe pisava os calos ao modo dos dançantes nos bailes de Páscoa ao, propositadamente, encenarem e executarem vibrantes encontrões no rivais da mesma paixão, resvalando para a pancada quando os contentores arrumavam mal o vinho poderoso vindo de uvas da Ermida, Possacos ou São Pedro Velho.


O Mata-Bicho Para o Alberto Fernandes

Na semana passada telefonei ao meu amigo Alberto Fernandes a fim de saber novas e mandados sobre o seu estado de ânimo e saúde da família em face da pandemia. Falou-me que nem um rouxinol madrugador e lembrou-me que nós, os de Bragança, estamos habituados, desde há muito tempo, mesmo muito, a matar o bicho. Enviei-lhe abraços e a promessa de escrever uma crónica relativa ao mata-bicho. É verdade, noutras terras, noutros lados, em todo o País matava-se o bicho, as receitas é que variavam.


A quarentena

Após o primeiro dia de quarentena senti-me como se estivesse em Cabinda, no rectângulo aquartelado do Dinge, uma antiga serração de madeiras preciosas vindas da floresta do Mayombe, onde estávamos imersos na companhia de elefantes, gorilas, venenosas serpentes e os suga sangues a que apelidávamos de miruis dada a sua microscópica pequenez permitindo a este mosquito pousar sobre o nosso corpo e banquetear-se à vontade.


Carnaval todo o ano

O título desta crónica é o de uma poesia do grande poeta brasileiro Manuel Bandeira, o grande modernista sofre do mal do esquecimento tal como inúmeros poetas de igual talento porque ler no entender de muita gente dita culta é maleita custosa e obriga a pensar. Por isso mesmo pense-se no grau de iliteracia reinante apesar dos burocratas culturais acenarem com estatísticas de vendas as quais englobam as provenientes dos dos livros de apoio escolar e correlactivos.