A opinião de ...

Quão fundo é o saco dos fundos?

Os fundos comunitários parecem um saco sem fundo, se acreditarmos em todos os discursos políticos que vamos ouvindo. Servem para tudo mas não dão para tudo. Aliás, niguém dá nada.
Mas a verdade é que o atual quadro comunitário, o tal que distribui o dinheiro Europeu pelos países da União, à razão de 14 milhões de euros por dia aqui para Portugal, está a pouco mais de um ano e meio de terminar e o grau de execução, isto é, de projetos apoiados e devidamente concretizados, pouco passa dos 35 por cento. Isto é, foi efetivamente utilizado pouco mais de um terço do dinheiro disponível.
Se ler as páginas centrais desta edição com alguma atenção, há de perceber algumas razões.
A começar pelo facto de, em Portugal, os portugueses se comportam como verdadeiros portugueses. Deixam sempre tudo para a última, seguindo aquele adágio tão popular entre os latinos “não faças hoje o que podes deixar para o último dia”.
A consequência disso é que, no último dia, como de costuma, se vai andar a fazer coisas (aprovar projetos e a gerir muitos milhões de euros) à pressa, sem olhar nem a bem nem a quem.
Há quem pense que é propositado, para que, ninguém olhando, se entregue a ouro a alguém, sem que se dê por isso.
Mas há outras questões a ter em conta.
Como o facto de Portugal ainda receber (e precisar mais do que nunca) do Fundo de Convergência, que só chega cá porque há regiões dentro do país a precisarem de convergir, isto é, estão tão pobres que ainda precisam de ajuda para se levantarem e porem de pé antes de começarem a andar sozinhas, enquanto outras correm e galopam a reboque... do dinheiro que deveria ser distribuído pelas tais regiões mais pobres.
“Se o país fosse todo Lisboa, não havia Fundo de Convergência”. Pois, mas para quem governa, em Lisboa, a partir de Lisboa e para Lisboa, o resto do país é paisagem. Ora, e na paisagem não se mexe, para não a descaracterizar. Deve ser isso...
Mas o facto de alguns avisos de concursos para candidaturas a fundos comunitários aparecerem de repente, a meio de um mês como agosto, por exemplo, em que muita gente está de férias e meio país (organismos públicos) parado, com um prazo de uma semana ou pouco mais para apresentar a documentação exigida, deixam a leve impressão que são concursos para ficarem desertos e o dinheiro sobrar. Até que chegue o último dia e já não esteja ninguém a olhar.
“Eles é que não o quiseram usar, o dinheiro até estava disponível”, ouve-se amiúde.
E aí está a desculpa para desviar os milhões da paisagem para onde (menos) interessa.
Em tempos, meio a brincar meio a sério, havia quem dissesse que des por cento dos agricultores recebiam dez por cento dos fundos disponíveis para a agricultura. E que o concelho com mais agricultores com morada registada era... Cascais.
É certo que o país já não é o que era. Já não há BES, Banif, BPN. Mas, em muitos casos, continua a não haver vergonha.
E assim vamos continuando, alegremente, a ver países como a Áustria, a Finlândia, o Chipre (o Chipre!!) a passarem por nós, pela esquerda e pela direita, enquanto seguimos a passo de caracol na autoestrada.
Se não fosse de chorar, até dava para rir.

De repente, numa semana houve tantas mortes em acidentes no Nordeste Transmontano como quase num ano inteiro.
As estatísticas, já se sabe, enganam. Mas, mesmo assim, devemos olhar para elas com atenção. É que o país não é só mato que serve de pasto para as chamas.

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3723