A opinião de ...

Causas e Consequências da Degradação da Democracia

Tive a feliz sorte de só ter vivido 12 anos em ditadura e de ter conhecido a liberdade redentora quando ainda era criança. Foi um tempo de profunda mudança nos hábitos e costumes, desde a simples relação entre as pessoas às oportunidades que se abriram com a conquista da democracia, pela qual tantos tombaram.
Por isso, as primeiras eleições livres para eleger a Assembleia com mandato para a redação da Lei Fundamental da República tiveram uma afluência às urnas que assinalava o grito libertador de todos aqueles que, num silêncio de 48 anos, tinham calado as suas vozes.
Iniciava-se um ciclo democrático, onde a democracia representativa pontuava relativamente a algumas tentativas de deriva para modelos de democracia popular ou de centralismo democrático. A liberdade e a democracia tinham convocado os melhores e pode dizer-se que das primeiras, segundas, terceiras, quartas e outras eleições os parlamentos foram “povoados” por gente competente, culta, com conhecimento abrangente, transversal e, sobretudo, com experiência de exercício profissional e com inegável sentido ético e de serviço público.
E num espaço de 20 anos os partidos, em particular os partidos ditos de poder (PS e PSD), foram sendo capturados por um carreirismo militante que resvalou, com o passar dos anos, para uma espécie de aparelhismo onde pontuam os medíocres e sem escrúpulos.
Os partidos tornaram-se permeáveis ao que de mais perverso deve exibir a chamada democracia representativa, promovendo uma casta de “políticos” em que ninguém se revê por bons motivos e onde foi visível grassar a incompetência, a falta de capacidade crítica, quando não mesmo a corrupção e outras formas de aproveitamento espúrio do poder a que foram tendo acesso.
Tal como a natureza, as sociedades reagem aos desequilíbrios, nem sempre de forma tranquila e resolutiva. E, por isso, a natureza encarrega-se de espalhar vírus e pragas para abalar os desequilíbrios provocados pela ação humana, enquanto as sociedades abrem as portas a aventuras populistas que contêm a génese da destruição da democracia e das suas virtudes.
Quando, decorridos 46 anos sobre o 25 de Abril, observo, numa espécie de viagem no tempo, ao que chegámos, não tenho o menor orgulho nos trilhos que foram seguidos. Ao esgoto onde desaguam os caudais das redes sociais acresce-se a putrescência que é hoje a dita democracia representativa, onde os representantes do voto popular emergem de sindicatos de voto, que corrompem as mais elementares e básicas regras democráticas, sem pudor ou escrúpulo, criando fantasias e vendo, em cada adversário, um potencial saqueador do “status quo” que os alimenta. E é assim que constroem narrativas onde a baboseira e a fulanização, num misto de perjúrio e incapacidade, subtraem o debate das ideias, a discussão das causas e a inteligência racional, que devem ser o leit motiv da ação política. E é este estado de degradação da democracia que, em Portugal, à semelhança do que vai acontecendo por essa Europa fora, abre as portas a todo o tipo de populismos que cavalgam a onda de descontentamento, desilusão e desânimo que se apoderou de todos os que veem este assalto ao poder da “liga dos últimos”.

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