Seguro parece ter futuro
Uma palavra prévia para as vítimas do temporal a quem devemos prestar a nossa solidariedade.
A segunda volta da eleição presidencial, em 8 de Fevereiro, tornou-se fácil para o candidato António José Seguro que teve difícil a primeira volta (em 18 de Janeiro). Por isso, digo que Seguro parece ter futuro.
Seguro vai certamente vencer a disputa em que se envolveu, em primeira mão, quase sozinho. Progressivamente, conseguiu o apoio de alguns socialistas. Depois, quando quase todos o apoiaram, Seguro teve a coragem de dizer que não era candidato pelo PS mas de todos os portugueses.
Seguro soube evidenciar o seu lado bom de dialogante, de moderação e de congregação da unidade nas diferenças, e ainda o seu lado moral ao recusar, ao lado de Ramalho Eanes, a subvenção vitalícia concedida aos políticos em exercício antes de 2005, pelos próprios.
Conseguiu ainda o apoio de um grande número de políticos democratas liberais, os quais, diz-se, para não deixarem derrotar o Governo e o seu líder, Luís Montenegro.
O seu opositor, André Ventura, exagera no radicalismo de um projecto político capturado por um caldo de ideologias que vão desde a democracia, ao Nacional-Socialismo e à Extrema-Direita Autoritária, com tendências fascistas e eugenistas. É uma salada complicada.
Apesar disso, André Ventura representa o protesto contra a degenerescência do nosso sistema democrático mas cola-se mais aos objectivos da Direita Conservadora e Nacionalista do que aos da democracia cultural e social. Arrisca-se a fazer aumentar o score da Direita Conservadora pondo em causa a unidade do projecto democrático português.
Ventura é demasiado jovem e radical para ser Presidente da República, tem enormes capacidades de resiliência, persistência, argúcia e acutilância retórica, ao mesmo tempo que tem razão em alguns temas da sua agenda política, que os autoproclamados líderes da Esquerda e da Social-Democracia não souberam, em tempo, contrapor e resolver em termos democráticos.
Com efeito, a promoção de Ventura enquanto líder do Chega, escrevi-o aqui várias vezes, foi feita pela Esquerda e pelos sociais-democratas, muitos dos quais não souberam ou não quiseram, civilizadamente, contrapor e contraditar aquelas ideias. Preferiram chamar-lhe «reaccionário» e «nazi» o que, obviamente, tendo a percepção do Povo a favor dos males denunciados por ele, fez crescer o Chega. Se Ventura foi MRPP na forma de dizer e escrever, os esquerdistas e os social-democratas foram reaccionários, dirimindo pela violência retórica as ideias «venturistas». Reaccionário, diga-se, é aquele que reage em defesa das suas condições de privilégio.
Com este comportamento dos adversários, Ventura vai ter um longo caminho pela frente. Até agora, o que fez bem o fez mal, mas tem grandes capacidades de aprendizagem e pode tornar-se grande no futuro.
Por enquanto, os democratas vivem no seu idílio dourado de fruição das benesses do presente, sem cuidar nem das ameaças do futuro nem da justiça social, mas, antes, do seu umbigo. Seguro é o seu amparo e refúgio mas é apenas, de momento, o seu mal menor.
