A opinião de ...

A PRINCESA A COROA E O SNS

Havendo semanas em que os temas para cronicar escasseiam, outras há em que abundam e a dificuldade reside na escolha. Era difícil não ser inundado pela enxurrada de notícias vindas de Angola e da que ficou conhecida como Princesa de África. Acompanhando o desenrolar da “novela” à distância fui surpreendido, no meio das revelações feitas pelas investigações do ICIJ, a coligação internacional de jornalistas de mergulhou nos meandros da construção do maior império financeiro africano, com uma página promocional louvando as ações de responsabilidade social de Isabel dos Santos. Uma página feita em contra-relógio tentando apagar com uma canequinha de água o enorme incêndio que lavrava já a sua imensa fortuna. Entre textos de exaltação do empreendedorismo, formação, saúde e solidariedade social, onde aparece em meia-dúzia de fotos (tiradas à pressa, quase todas com a mesma fatiota – se fosse de eventos sociais haveria milhares para escolher). Não há forma de não lembrar os famosos chazinhos de caridade tão do agrado das dedicadas e esmoleres esposas dos donos do país, no tempo da “outra senhora”.
As reportagens diárias do expresso iam mostrando o contraponto de miséria, opressão e doença.
De doença foi a outra notícia bombástica. Ao mesmo tempo que caía a coroa da filha mais velha de Eduardo dos Santos, uma outra coroa se erguia, arrogante e ameaçadora, no oriente. O Corona Vírus revelou-se, impetuoso, na China e alastrando por várias cidades tratou de se catapultar para todo o mundo, transportado a velocidade supersónica pelos atuais meios de transporte. São assim a pandemias atuais. Rebentam, sabe-se lá onde, muitas vezes em zonas pobres e pouco higienizadas, e rapidamente se transformam em ameaças globais desafiadoras dos meios mais sofisticados de combate e prevenção dos países mais ricos, evoluídos e tecnologicamente mais avançados.
Por uma ironia perversa, é aí que o combate exige mais esforços e onde, em determinadas circunstâncias, maiores podem ser os efeitos maléficos. Resultado de anos e anos de combate, os vários agentes patogénicos foram sendo eliminados pelo que deles vai restando apenas a porção mais resistente, logo a que há de ser, cada vez mais difícil enfrentar. Pela mesma razão, os seres normalmente infetados estão, cada vez mais, arredados destes combates naturais e seletivos, pelo que menos defesas próprias possuem. Para as classe mais abastadas deverá ser tema de reflexão o postulado de que a melhor defesa (talvez a única com possibilidades reais de sucesso) é a prevenção. Ora, a vida moderna não permite cordões sanitários nem bandeiras negras à entrada das portas das cidades. A única forma real de prevenir é garantir cuidados médicos especializados e eficazes a TODOS. Um Serviço de Saúde, Universal, Completo, Eficaz e Acessível a toda a população mundial é o melhor seguro de saúde de todos, muito especialmente da pequena parcela humana mais rica. Por muito dinheiro que isso lhes possa custar, muito mais terão de despender se pretenderem assegurar a sua defesa sanitária recorrendo a uma medicina elitista e de acesso limitado.

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