A opinião de ...

Requiem pela Geringonça

Muito se tem falado sobre os possíveis acordos parlamentares (ou governamentais) após as próximas eleições legislativas. Tudo se tem centrado à volta da possibilidade de o PS obter, ou não, a maioria absoluta em outubro próximo. Erradamente, a meu ver. A solução governativa não está cativa de maiorias absolutas, tal como nunca esteve. Foram vários os governos minoritários e a condição de exercício do poder passou, como continua a passar, pela existência ou não de uma maioria que se lhe possa opor. Os partidos de direita, com especial enfoque para o CDS/PP – percebe-se bem porquê – vieram reclamar que tinha mudado o paradigma. Já não é preciso ganhar as eleições, para formar governo – é necessário integrar um bloco maioritário. Nada disso. O dirigente do partido mais votado será, como foi e há-de ser, chamado liderar a nova equipa governativa. Basta que a maioria dos deputados não se lhe oponha. Mas isto não é nenhuma novidade. O que aconteceu na legislatura que agora finda é que houve uma maioria que se opôs à coligação PSD/CDS. E essa maioria, para evitar novas eleições, apoiou e suportou durante todo o tempo de vigência dos mandatos, um governo não só minoritário mas cujo partido nem sequer ficou em primeiro no escrutínio nacional. E isto não é um simples pormenor. Nunca foi! O primeiro governo de Cavaco Silva caiu quando toda a oposição se uniu, como aconteceu com o segundo de José Sócrates. O primeiro de António Guterres sobreviveu e o segundo só caiu porque ele atirou a toalha ao chão, depois da estrondosa derrota nas autárquicas e exausto com a negociação do Orçamento do Queijo Limiano.
Tal como todos os outros, António Costa se ganhar, como tudo indica, as eleições, será chamado a formar governo, independentemente de acordos ou coligações. A minha forte convicção é a de que o fará sozinho. Porque não será fácil conviver no Conselho de Ministros com parceiros que cada vez menos afinarão pela sua pauta. O PCP porque está desejoso de se libertar do fatal “arco da governabilidade” que lhe “roubou os louros” das várias lutas e só lhe trouxe perdas e dores de cabeça; o Bloco já não esconde a sua ânsia em integrar o governo… para ganhar autonomia na resistência ao crescente alinhamento europeu de Costa e Companhia. O prestígio de liderar o Eurogrupo tem uma fatura associada que será necessário pagar a tempo e horas.
A Geringonça nasceu, para impedir Passos e Portas de continuar no Governo. Nem o PCP nem o BE se converteram ao costismo e muito menos os seus eleitores. Igualmente é notório e evidente que Costa não adotou a ideologia marxista. A acordada coabitação nunca se concretizou em casamento.
A solução governativa vigente foi um produto direto do pragmatismo de António Costa que, de novo, usará após ganhar as eleições, como tudo indica. Será, porém, de forma diferente, sobretudo se o hemiciclo ficar, como se prevê, mais fragmentado. A sua mestria e habilidade política permitir-lhe-ão governar com acordos pontuais, cedendo apenas no indispensável sem receio de ser derrubado. Não se vislumbram condições para a repetição de uma coligação negativa como a que aconteceu em 2011.

Veja-se o que se passou com a abortada união para a recuperação do tempo de serviço dos professores!

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