A opinião de ...

O Rei Dormente…

Não num Conto de Fadas, mas num real Reino, dos que antigamente reinavam, algo de gravoso acontecia trazendo o povo angustiado. O Rei, de virilidade insuspeitada, fez pela sucessão mas, destino atroz, todos os nove filhos morreram antes dele. Fado cruel, o último vivo, homem e herdeiro do trono, faleceu após plantar semente na barriga da princesa, sua esposa. Mas os céus e os ventos estavam todos contra este pequeno reino bordejado de praias oceânicas viradas para outros mundos. Uma irmã do Príncipe herdeiro, tia do embrião/feto, também falecida, casara com Rei de reino umbilicalmente colado, cruzaram a História juntos, umas vezes de frente outras de costas. Pela redação do acordo nupcial desta princesa sabia-se que, pela falta de herdeiro do irmão fadado para Sua Alteza Real, seu próprio filho seria Rei de dois Reinos, um verdadeiro Imperador.
Nas vésperas do nascimento, a 19 de janeiro de 1554, a Igreja levantou toda a populaça, nobres e povo de mãos dadas implorando aos astros pelo bom nascimento do futuro Monarca.
Na capital, a Igreja de S. Domingos transbordou, gigantesca procissão humana errou orando fervorosamente ao redor do templo até que, na manhã seguinte a boa nova soprou e varreu todo o território nacional, os céus e todas as divindades do olimpo tinham intercedido por este povo com provas dadas, de cristandade fervorosa e de Fé inesgotável.
Os avós paternos deste nascituro, D. João III e D. Catarina, chamaram a si os cuidados da esperança de todos, que a vida lhe fosse de feição.
Um facto, Histórico, é que precisamente com três anos, quatro meses e dois dias, este Infante, Príncipe, pela morte do Avô, é aclamado Rei de todo o território, incluindo o de novos mundos.
Mas, nas trevas, movimentavam-se os do costume, tendo como ambição, o agarrar ou destruição do Graal, do cálice, da coroa, símbolo do poder supremo, de um lado a nobreza, Igreja e povo, no outro o outro reino, o tal umbilicalmente colado.
Após duas Regências, da Avó e de Tio Cardeal, já na adolescência, pelos Jesuítas formado, com Fé inabalável, Rei de Reino em decadência, financeiramente esgotado, é sondado por Xarif deposto, lá para os lados de Marrocos, Mulei Mohammed. Dizia ele que os Turcos ao reconquistaram Tunes, aliaram-se a Mulei Moluco para domínio absoluto de Norte de Africa. A juventude, força-motriz do impossível, levou-nos para o campo de batalha impreparado guerreiro que, palavras da historiadora Luísa Cunha, desapareceu a meio da luta sangrenta para reaparecer vinte anos depois em Itália, sua idoneidade comprovada pelo Papa Clemente VIII. Morre, talvez a mando de Filipe II de Espanha, I de Portugal e sepultado na Capela de São Sebastião no Convento dos Agostinhos em Limoges. Foi, mais tarde, transladado para um dos Transeptos do Cruzeiro do Mosteiro dos Jerónimos em imponente sarcófago, assente em dois soberbos elefantes do mais nobre mármore, negro. Envolto no nevoeiro opaco de misterioso secretismo o mártir e mítico D. Sebastião, pronto a levantar-se, a qualquer momento, do imponente Túmulo, fica para a História como O Rei Dormente…

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