Diocese de Bragança-Miranda

Diocese editou correspondência entre Salazar, Marcelo Caetano e Mons. José de Castro

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 2020-05-28 09:45

A diocese de Bragança-Miranda editou, no passado dia 21, correspondência trocada entre Mons. José de Castro, António de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano.
O livro ‘Correspondências’, da autoria de Henrique Manuel Pereira e Sandra Vale, é o 12.º volume da coleção Presbyterium.

“O livro inscreve-se no plano de trabalho que iniciámos em 2014, com a organização do livro “D. Frei Bartolomeu dos Mártires e outros textos sobre o venerável”, da autoria de Mons. José de Castro, prolongando-se, de modo particular, em 2016, com a organização do Congresso vida, obra e pensamento de Monsenhor José de Castro. Na sequência, a coautora deste livro, Sandra Vale, iniciou o seu doutoramento justamente sobre a figura de Mons. José de Castro. Tenho o gosto de ser seu orientador na Universidade Católica do Porto; segundo as nossas expectativas, defenderá provas ainda no ano em curso”, explicou Henrique Manuel Pereira que, em 2016, em entrevista ao Mensageiro, “afirmava que Mons. José de Castro é “uma das mais ilustres personalidades de Bragança e da história portuguesa contemporânea. Homem de carácter e de cultura, Mons. José de Castro (1886-1966) foi sacerdote (sempre ligado pela incardinação à diocese de Bragança-Miranda), jornalista, escritor, historiador, conferencista, diplomata. Foi tudo isso em grau superlativo.”

Assim, este livro, como o título indica, “gira em torno das correspondências epistolares entre Mons. José de Castro, António de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano”. “Desde logo, como sabe, além do valor testemunhal, e independentemente do valor literário intrínseco que possam ter, os epistolários são, via de regra, parte integrante das altas figuras de uma cultura”, explica o autor.

Segundo Henrique Manuel Pereira, “a epistolografia é uma valiosa fonte histórica”.

"Na correspondência, não raro se acham dados novos, elementos informativos essenciais – a rede de amigos dos autores, as leituras, as viagens, a bibliografia que lhes diz respeito, os hábitos e ritmos de trabalho, a génese de uma obra, a mundividência de uma evolução estética e espiritual, o grau de cumplicidade, as estratégias e farsas, os sistemas dominantes, etc.

Por vezes, de forma surpreendente, tal contribui para a correção de perspetivas ou para o preenchimento de lacunas informativas relativamente aos autores e às suas obras, propiciando novas conexões, que permitem uma mais completa inteligibilidade histórica e crítica. Assim sucede no que respeita à figura de Mons. José de Castro”, garante o investigador.

“Enquanto Conselheiro Eclesiástico da representação diplomática de Portugal junto da Santa Sé, Mons. José de Castro (1886-1966) dinamizou uma densa rede de contactos, alimentada por prolixa correspondência epistolar. Espanta, justamente, a amplitude e “qualidade” das redes de relações e sociabilidades que, mormente nesse período, organizaram o seu contexto.

Entre os interlocutores do sacerdote e diplomata brigantino, figuram precisamente os nomes dos dois homens que conduziram os destinos do país ao longo de mais de quarenta anos: António de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano.

O contacto epistolar com ambos – patente nos dois conjuntos desiguais, apresentados neste volume – acompanha a diacronia de vida dos seus interlocutores, descrevendo um arco temporal, no que respeita a António de Oliveira Salazar, de finais de 1932 a fevereiro de 1951 e, no que toca a Marcelo Caetano, de abril de 1938 a março de 1947. Oferece, portanto, um quadro policromático das vicissitudes políticas e diplomáticas que envolveram o Estado Novo, desde a sua constituição.

Resultando de procedência múltipla, as cartas foram, sempre que possível, organizadas em diálogo. Do Arquivo Distrital de Bragança provém, quase integralmente, a correspondência recebida por Mons. José de Castro,. No Arquivo Nacional Torre do Tombo encontrámos a correspondência enviada por Mons. José de Castro aos dois interlocutores, nos correspondentes fundos documentais que lhe são dedicados – Arquivo António Oliveira Salazar e Arquivo Marcelo Caetano”, disse ainda.

Por isso, conscientes dos limites deste trabalho, estamos igualmente convictos de que, doravante, a biografia de Mons. José de Castro terá de passar pelas suas páginas e que a bibliografia crítica de António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano não deverá ignorá-las”, concluiu o investigador, natural do distrito de Bragança.