A opinião de ...

Luz Vermelha, a nova série da RTP

A RTP1 iniciou a apresentação desta série de ficção nacional, com 13 episódios, que tem como “ponto de partida a condição humana, uma reflexão sobre os papéis sociais, a solidão e o impacto da exploração da prostituição na actualidade”. Tendo em conta as notícias a autora, Patrícia Muller, inspira-se no “famoso caso das mães de Bragança”, isto é, no movimento gerado por ”um grupo de mulheres traídas pelos maridos que no início do ano 2000 fizeram um abaixo-assinado para salvar Bragança de uma onda de loucura que envolvia prostitutas brasileiras, um tema que chegou à capa da revista Time”. (https://www.publico.pt/2019/10/11).
Nos dois primeiros episódios verifica-se a viagem controlada da turista Bruna, a jovem brasileira que, tudo indica, será a vítima nesta série, a sua chegada ao bar de alterne e a apresentação à madame Inna e ao patrão Carlos. O bar que se situa em contexto rural está em pleno funcionamento. A madame controla e gere as meninas, trabalhadoras do alterne que se sentam, relacionam e bebem com os clientes. Também dá ordens a Bruna, que apenas quer fazer limpeza, mas é obrigada a ir ao cabeleireiro e a fazer alterne na primeira noite de trabalho. Nos procedimentos e atitudes da Bruna é evidente a insegurança e incerteza. No seu olhar está estampado o medo. Não admira. É a sua chegada a um mundo onde tudo, ou quase, é desconhecido e nada nem ninguém lhe inspira confiança. Já há indícios de algumas práticas criminais. A coação, a violência e falta de liberdade são evidentes.
Tenho para mim que o “Movimento da Mães de Bragança (MMB)” foi um fenómeno social que surgiu na sequência de um documento entregue à comunicação social e autoridades locais. Assinado por quatro mulheres que se intitularam “Mães de Bragança”, em virtude do sentimento de indignação e ameaça social que a dimensão e visibilidade da indústria e comércio do sexo originaram na sociedade local ao prosseguirem a exploração simultânea de quatro clubes de prostituição e alterne, com mulheres quase só brasileiras. A visibilidade do fenómeno da exploração massiva da prostituição na cidade transferiu-se depois para a visibilidade do fenómeno social do “MMB” em face da ampla e prolongada cobertura mediática que este mereceu, sobretudo após a revista “Time” ter publicado uma extensa reportagem textual e fotográfica relativa ao tema, bem como ao debate que suscitou não só ao nível da própria comunicação social, mas também do ponto de vista académico e como objeto de estudo do movimento migratório relacionado com o comércio sexual.
O MMB caracteriza-se por aspectos formais de carácter teórico e jurídico e também sociais, sendo estes que lhe transmitiram a perspetiva de problema social grave. Os factos começaram a ter visibilidade a partir de Abril de 2003, isto é, quando da divulgação do manifesto entregue às autoridades. Porém, os processos criminais iniciados pelas instâncias formais de controle, polícia e tribunal, tiveram início alguns meses antes, em Setembro de 2002, o que prova que os seus agentes tiveram a perceção das práticas criminais bastante tempo antes da pressão social e a necessidade de intervenção.

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