A opinião de ...

Pragança…

Sem êxito, tento passar a mensagem que o segredo da elevação social passará simplesmente pela humildade. Qualquer que seja a profissão, pedreiro, carpinteiro, médico, economista, caixa de supermercado, se não de braço dado com a humildade, o respeito da sociedade esvai-se no efémero.
A cultura, a formação, o poder económico, desligados desse nobre sentimento, não colocarão, por si só, os personagens no Olimpo, no sítio onde mora a posteridade.
Dá dó constatar o real, observar os que pensam ser a ostentação gratuita e de custos pessoais, alvo de risota e galhofa camuflada, interiorizando que, só por isso, ascenderão a outo patamar social. Renegar as origens na fuga em frente é cansaço para a vida, será sintoma de pequenez, rastilho de sofrimento.
Sabe-se, através da História, que nos locais habitacionais da Família Real, oficiais e férias, formigueiro humano acotovelava-se na disputa de lugar, levando muitos nobres da corte, ou aspirantes ao sangue da consanguinidade hemofílica, azul, a investirem nestes locais, construindo palacetes de lazer, na ânsia da partilha de uma fala ou olhar de qualquer membro da família de El-Rei.
Por ali, por entre as doiradas searas, lugar de luz celestial, Queluz, nasce o Real Palácio de Queluz e dezenas de casas nobres e pretensas equiparadas, dali até Oeiras. Lá nos altos de Sintra, local de conto de fadas, nasce o Real Palácio de Sintra rodeado pelos Palacetes dos costumeiros pretendentes aristocráticos. Em Lisboa, na Junqueira que salvou D. José I do terramoto, emergiram Solares de renome donde se destaca, pela opulência, o da Quinta das Águias joia magnânima, pela opulência, dimensão, iluminura e vanguardismo.
Muita desta fauna, de passo maior que a perna, marionetas do sistema, consumiam o que os ventos da Europa, do Estrangeiro, nos faziam chegar, os distintos e cobiçados bens, chave de entrada à classe alta, miragem fugaz dos frustrados.
E é precisamente por um dos apetites reais, o gelo, que se desenrolará tragédia humana de exploração dos mais pobres dos pobres.
Conta-se que pela visita a Portugal de Filipe III de Espanha, II de Portugal, tudo foi feito para não faltar tamanha iguaria na mesa real e, por falta de meios, a neve chegou da Serra da Estrela. No entanto, devido ao crescente consumo no sec. XVIII, o Rei incumbe o Neveiro Real de construir, perto de Lisboa, em Montejunto/Cadaval, a Real Fábrica do Gelo, hoje visitável, construída no ermo da serra, vários tanques e armazém. Em lugares onde nasce a neve, de invernias abaixo de zero, trompete acordava aldeia, os 30 primeiros receberiam jeira para cortar gelo, carregá-lo às costas para armazém, inundar de novo os tanques, regressar de madrugada para retoma dos trabalhos agrícolas. A mercadoria chegaria a Lisboa, no Verão, para gaudio da casta lusa. Duma pequena aldeia, encravada no ventre gelado donde se alevantam os nevoeiros que cegam, povo anónimo foi explorado para saciar os prazeres reais e dos senhores do mundo. Eram do Cadaval, serra de Montejunto, de Pragança…

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