Os assassinatos de carácter
As redes sociais trouxeram ganhos inegáveis à democracia: ampliaram vozes, encurtaram distâncias e criaram novos espaços de participação cívica. Mas trouxeram também uma perversão preocupante: o assassinato de caráter feito em praça pública, muitas vezes dirigido a pessoas ligadas a instituições públicas, sem contraditório, sem prova e sem responsabilidade.
Hoje, basta uma suspeita lançada num ‘post’, um comentário insinuado ou uma narrativa emocionalmente carregada para que se inicie um linchamento digital. A técnica é simples e conhecida: pegar numa base factual verdadeira, deturpá-la, truncá-la, descontextualizá-la, até a tornar numa mentira completa mas que favoreça e encaixa na narrativa pretendida.
Aqui não há tribunal, aqui não se permite defesa, aqui não há presunção de inocência. Há julgamentos sumários, partilhas em cadeia e uma indignação que se autoalimenta, indiferente aos factos.
Quem trabalha em instituições públicas torna-se um alvo fácil. A sua exposição pública é confundida com perda de direitos individuais. A sua função é usada como argumento para justificar ataques pessoais. A lógica é simples e perigosa: se está no espaço público, “aguenta”.
Mas ninguém deve “aguentar” a difamação, a calúnia ou a destruição reputacional só porque deu o corpo à causa pública.
O debate público exige crítica, escrutínio e exigência, obviamente, mas não pode compactuar com ódios, invejas, insinuação ou justiça pelas próprias mãos digitais, a coberto de desígnios próprios e agendas pessoais.
O mais grave é que estes assassinatos de caráter raramente procuram a verdade. Procuram influência, ajuste de contas, visibilidade ou simples catarse coletiva. E quando a mentira se instala, o dano já está feito: a reputação manchada, a família atingida, a saúde mental fragilizada. Mesmo que a verdade venha depois, raramente tem o mesmo alcance.
Mas mais grave ainda é as instituições públicas darem cobertura ao anonimato, desresponsabilizando os assassinos, tornando-se cúmplices na atuação.
A liberdade de expressão não é liberdade de destruição. O anonimato não pode ser escudo para a irresponsabilidade. E a sociedade não pode normalizar que se condenem pessoas sem prova, apenas porque “parece”, “ouvi dizer” ou “alguém comentou”.
Defender instituições públicas passa também por defender as pessoas que nelas trabalham. E defender a democracia passa, inevitavelmente, por travar o linchamento digital travestido de opinião.
Porque quando o caráter é assassinado online, o silêncio cúmplice também é uma forma de violência.
Quem tem a perder somos todos. Porque à medida que esta forma de atuação ganha espaço, normaliza-se.
E, com isso, cada vez mais gente se afasta da causa pública.
Sobram os mesquinhos, os incompetentes, os sem caráter, pois já não o têm para ser assassinado.
E, no fim, não sobra nada porque tudo foi delapidado.
