A opinião de ...

Na vida, só precisamos de um xaile

Há momentos em que a vida não pede explicações nem soluções. Pede apenas presença, colo e alguém que fique. Talvez seja isso que, no fundo, procuramos quando tudo pesa: um xaile.
Há palavras que não se explicam. Acontecem. Chegam devagar, pousam em nós com cuidado e ficam. Há dias, uma senhora disse-me uma dessas palavras. Disse-a sem ênfase, sem intenção de ensinar, como quem partilha algo que sempre soube.
Disse-me que, no fundo, o que nós precisamos na vida é de um xaile.
Sorri, surpreendido. Um xaile? perguntei. E ela voltou a sorrir também. Não respondeu logo. Os olhos dela afastaram-se de mim e foram para outro tempo, outro lugar, onde a memória ainda aquece.
Falava do xaile das avós. Grande, pesado, gasto pelo uso e pela ternura. Maior do que elas próprias. Quando a tristeza chegava sem avisar, quando a doença cansava o corpo ou quando o medo não deixava dormir, havia sempre um colo. E havia o xaile. Um gesto simples. Um abraço demorado. O corpo pequeno a ser envolvido devagar, como quem diz, sem palavras, que ali se pode descansar.
A avó sentava-se. Puxava o xaile com cuidado. Envolvia-nos sem perguntas, sem pressas. E naquele silêncio quente, quase sagrado, o mundo não ficava resolvido. Mas ficava possível. O coração abrandava. O medo encolhia. A coragem voltava, mansinha, como quem regressa a casa.
Nada precisava de ser explicado.
Nada precisava de ser corrigido.
Tudo encontrava repouso.
Com o tempo, percebíamos que o xaile não era apenas tecido. Era a presença que ele trazia consigo. Era a certeza de que alguém estava ali, por inteiro, disponível, sem exigir força a quem já não a tinha. Era isso que curava.
Talvez por isso esta imagem nos toque tanto ainda hoje. Porque vivemos num tempo rápido, funcional, cheio de palavras, de soluções, de ecrãs acesos. Um tempo eficaz, mas estranhamente frio. Um tempo que nos ensina a responder depressa, a seguir em frente, a não incomodar. Um tempo que pouco nos ensina a ficar.
E, no entanto, todos precisamos desse lugar. Mesmo quando crescemos. Mesmo quando já não o pedimos. Continuamos a precisar de colo, de presença, de alguém que abrande connosco quando a vida pesa demais. Alguém que nos envolva, como um xaile, quando o mundo se torna áspero.
E quase sem darmos conta, a vida muda-nos de lugar. Já não somos apenas os que precisaram de ser embalados. Tornamo-nos, também nós, colo para alguém. Um filho. Um amigo. Um pai cansado. Uma mãe silenciosa. Alguém que sofre e não sabe como dizer.
Ser xaile não é ter respostas.
É estar.
É oferecer tempo.
É ficar quando seria mais fácil ir embora.
Não é resolver a dor.
É não deixar que ela destrua.
Ser xaile é escutar com paciência, acolher sem julgar, proteger sem apertar. É tornar-se um lugar seguro na vida de alguém, mesmo quando não se sabe bem o que dizer. Mesmo quando o silêncio é tudo o que há.
Talvez seja esta uma das maiores urgências do nosso tempo. Não mais discursos, nem mais exigências, nem mais ruído. Precisamos de pessoas capazes de ternura. Não uma ternura frágil ou sentimental, mas uma ternura firme, que sustém, que cuida, que permanece. Uma ternura que ama por inteiro.
Na vida, talvez seja mesmo isso o essencial.
Ter tido um xaile foi uma graça.
Aprender a sê-lo é uma graça ainda maior.
Porque há dores que não pedem explicação.
Pedem apenas que alguém fique, envolva, ame.
E, quando alguém fica, a vida encontra maneira de continuar.

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