A opinião de ...

Tempos estranhos

Foram estranhos estes quinze dias últimos, dominados pelos temas da regionalização do Coronavírus-2/Covid19, em Portugal; da exclusão dos cidadãos idos dos aeroportos de Portugal de entrada directa nos territórios da Dinamarca e do Reino Unido; do Primeiro Orçamento Suplementar para 2020; da solução para a TAP; e do populismo triunfante do Primeiro-Ministro e do Presidente da República acerca daquela exclusão.
Os lisboetas riram-se do resto do país, «atrasado e pouco educado», aquando da primeira vaga do Coronavírus-2. Agora, no que, presumivelmente, é a segunda «saison» da atuação do vírus, em Portugal, ele achou que devia prendar a região de Lisboa com a lembrança de que só pode haver um Portugal, mesmo que os Açores e a Madeira não façam parte do país ou façam parte de um país diferente, mais civilizado, organizado e astuto, em matéria de proteção contra o vírus e a sua parceira Covid-19.
E é muito estranho que Primeiro-Ministro e Presidente da República, tão zelosos da unidade nacional, regionalizem agora o vírus e a doença por ele provocada, vendendo aos ingleses e dinamarqueses a ideia de que o Algarve, a Madeira e os Açores são extremamente seguros para visitantes, a pretexto das necessárias receitas ao turismo destas regiões. Num populismo quase miserabilista, quais «Senhor Contente» e «Senhor Feliz» disseram à Europa e aos portugueses que a decisão da Dinamarca e do RU é injusta porque não considera vários indicadores de desempenho quando foram eles os principais responsáveis de que o país, no último mês, se tenha posto a jeito de uma tal exclusão. De resto, o Governo, provavelmente ocupado com outras matérias, distraiu-se completamente da nova visita indesejada do Coronavírus 2, tomando apenas medidas pontuais e circunstanciais que não resolveram nem resolverão o problema.
Pode ser que o Orçamento Suplementar e a TAP mobilizassem as atenções dos governantes. Foram e são dois assuntos muito sérios cada qual no seu lugar, que não o da saúde, vituperada circunstancialmente por protagonistas de agendas mediáticas dos próprios aliados do Governo, que mais não evidenciam que descoordenação de ação e de interesses.
Porém, ter de contar com a generosidade do PSD, tanto para o Orçamento Suplementar como para a decisão sobre a TAP, fez o PCP, pela Voz de Álvaro Cunhal, ressuscitar os fantasmas do Bloco Central de 1983/1985, e das greves que a reestruturação (palavra maldita) da TAP irá provocar. Fosse qual fosse a decisão sobre a TAP, de entre nacionalização e gestão privada, ela seria polémica, difícil e perigosa para o futuro.
Tal como outrora tivemos de hipotecar o país para pagar as naus e os marinheiros, teremos, no futuro, de voltar a hipotecá-lo para pagar os aviões, os pilotos, os assistentes de bordo, as manutenções, os lugares de estacionamento em aeroportos, os serviços de apoio e de alimentação, etc.. A TAP tem uma passada maior que a perna e a gesta da canção que canta «já fui ao Brasil, Angola, Moçambique, Macau e Timor, já fui um conquistador» e, agora aos EUA e à China, é demasiado pesada para asas tão pequenas.

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