A opinião de ...

Natal, a desmisticação duma grande mentira

stamos mais uma vez em dezembro, mais uma vez na época de Natal, vítimas dum consumismo avassalador, arrastados na volúpia incontornável de compras e mais compras, tantas delas sem qualquer sentido nem a mínima utilidade, prática na qual as sociedades ditas mais desenvolvidas, (e aqui seria de perguntar-lhes onde entram os mais pobres e desamparados dessas mesmas sociedades), se deixaram afundar. Questionando quase tudo do que até possa ser considerado como a única razão das comemorações natalícias, quer seja o consumismo compulsivo, desregrado e desgovernado, ou uma parafernália de eventos, festas e comemorações, vazias de sentido e de qualidade muito duvidosa, mesmo assim, assumo o risco de classificar as atuais celebrações do Natal como uma mistificação ou, se preferirem, como uma enorme mentira na qual nos deixámos envolver.
A título de inquérito, perguntei a várias pessoas coisas básicas como se sabiam porque é que o Natal é em dezembro, o que para eles é mais importante e adequado às celebrações natalícias e qual o verdadeiro significado do Natal.
Consciente do valor duma amostra desta natureza, mesmo assim, confesso que fiquei desiludido com a maioria das respostas, reveladoras dum desconhecimento total da importância e da verdadeiro sentido do grande acontecimento que foi o nascimento daquele menino, em Belém de Judá à mais de dois milénios, portador duma mensagem de paz e de amor que mudou o curso da história da humanidade que, a partir daquele momento, passaria a dividir-se em “antes de Cristo” e “depois de Cristo.” Dos quatro evangelhos que relatam o nascimento e a infância de Jesus Cristo, por ser o mais pormenorizado, transcrevo a seguir o de S. Lucas, que nos diz assim:
“Naqueles tempos, apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, porque era da casa e família de David, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogénito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Haviam por ali uns pastores, que vigiavam e guardavam os rebanhos nos campos durante as vigílias das noites. Um anjo do senhor apareceu-lhes e a glória do senhor refulgiu ao redor deles e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: “ Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova, que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na cidade de David um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste que louvava a Deus e dizia: “ Glória a deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens objecto da sua benevolência. Depois que os anjos os deixaram, foram com pressa e acharam Maria e José e o Menino deitado na manjedoura”.
Para viver com verdade o que ainda resta do verdadeiro espírito de Natal, é urgente e imperioso que nos reencontremos connosco próprios, que o mundo abra o seu coração à mensagem do Menino em toda a plenitude e que escolhamos que Natal queremos para nós e para os outros, assumindo o compromisso de legar às gerações vindouras esta mensagem de paz, de amor, de fé, de esperança e de fraternidade sem a qual, os votos de Boas Festas e de Feliz Natal, serão sempre uma torpe mentira, uma refinada manifestação de hipocrisia ou, quando muito, vulgares formalidades sem qualquer significado. Mas isto pode ser tudo menos o Natal do Menino Jesus.

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