A opinião de ...

Conceito de estabilidade

A recente greve dos motoristas de matérias perigosas fez-nos espraiar o pensamento em diversas direções. A dignidade dos trabalhadores, a importância do diálogo com as entidades patronais, a missão dos sindicatos, os direitos do cidadão comum, o recurso à greve… foram temáticas sobre as quais pudemos refletir. Foi-nos ainda dado constatar, mais uma vez, a necessidade que temos uns dos outros. Quantos mais sectores do mundo laboral, discretos e silenciosos, precisam de parar para nos darmos conta da sua importância? E quantas vezes mais precisamos de parar, ou ser ameaçados de tal, para promover uma maior equidade social?
Para além de tudo quanto fomos lendo, escutando e conversando, esta greve foi-me igualmente uma oportunidade para aferir o conceito de estabilidade. Ela veio estalar os nossos parâmetros de segurança ao ponto de atear uma certa cultura do pânico. Sem dúvida que no nosso país a densidade populacional aumenta nesta estação estival, porém não deixa de ser irónico que o período de férias, um tempo de repouso e descanso, compreenda tanta necessidade de mobilidade. Se o resto do ano é pautado pelo ritmo do vaivém quotidiano entre a casa e o trabalho, nas férias a percussão é diversa mas não dispensada. Essa mobilidade, com o acréscimo duma greve como ameaça, no centro do nosso “descanso sabático” anual, presta-se a expressar aquela inquietação que habitava Santo Agostinho como habita qualquer um: «Senhor, o meu coração anda inquieto enquanto não repousar em Ti». Mesmo no período de descanso, há sempre qualquer surpresa a destabilizar, a comprometer projetos e agendas, a assinalar que o ser humano é inquieto por natureza.
A este propósito, ao escutar recentemente um apreciado padre italiano, Fabio Rosini, num dos seus comentários à liturgia dominical, esbarrei com meia dúzia de frases luminosas; absorvi-as como se fosse um peregrino sequioso. Ei-las: «nós acreditamos que exista a situação estável. Esta é a grande ilusão do homem: que exista um ponto de chegada. Qualquer pessoa vive na expetativa de encontrar um ponto e encontra sempre vírgulas. É assim a vida! Constante mudança, constante vigilância. Isto não deve deixar-nos em tensão mas deve inserir-nos na vitalidade. Uma coisa é a opressão, a tensão, a pressão.. outra coisa é viver, estar cheio de vitalidade, em movimento, disposto à mudança e a ser surpreendido. Existe uma nostalgia de estabilidade que no fundo é uma ilusão mortífera no coração do ser humano». A princípio, estranhei, parei como quem suspende a respiração, mas, por fim, escutei-as outra meia dúzia de vezes. Parecem em contradição com Santo Agostinho quando estão em pleno acordo. Na verdade, querer a estabilidade sobre este chão é como renunciar à inquietação agostiniana que nos faz progredir. Que seria das comunidades monásticas, que professam o voto da estabilidade, sem a instabilidade a redesenhar e fortalecer a unidade interior em torno do Único necessário? Isto seja nas questões de ordem espiritual como nas de ordem temporal. Uma greve tem sentido quando inquieta e dá voz a questões ainda não respondidas. Além disso, traz consigo o peso simbólico de que, nesta peregrinação da vida, o conceito de estabilidade integra a surpresa duma visita inesperada e indesejada a recriar de sentido o caminho e a encher de grandeza a caminhada.

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3745