A opinião de ...

Um Dia a Apanhar Castanhas

Para o dono das castanhas o dia começa cedo, cerca das 06:00. É necessário arrumar as coisas na carrinha todo-terreno de cabine dupla. Matar o bicho à pressa e, sem demoras, ir buscar as apanhadeiras, que são três mulheres duma aldeia próxima e, sempre que podem, ganham umas jeiras, seja na apanha da castanha, nas vindimas ou em outros trabalhos agrícolas. Há terras que ainda têm algumas pessoas que ainda podem e querem trabalhar. O valor da jeira é 50 €. Tem 8 horas. Inicia às 07:00 e termina às 16:00, com intervalo de uma hora para almoço ou apenas comer a merenda e um breve descanso, à pressa, entre as doze e as treze horas. O percurso desde a saída de casa, apanhar as mulheres e chegar ao souto demora cerca de 40 minutos.
Eu, que não sou jeireiro, vou ajudar. Só chego ao souto pelas 08:30. Já há 4 sacas cheias. O dono anda com o soprador às costas, assopra e retira as folhas e os ouriços. Deixa ficar as castanhas todas escaroladas debaixo do castanheiro. Prontinhas a apanhar. As três senhoras, agachadas e agasalhadas, apanham os frutos debaixo dos castanheiros, com boa ligeireza. Além de apanhar castanhas a par das três profissionais da arte, tarefa da qual procuro desenvencilhar-me o melhor que consigo, cabe-me despejar os baldes, o que faço de forma que as elas não parem.
Esteve um dia excelente de Outono e de castanhas. De manhã estava muito enevoado e até começou a cair uma “chuva miudinha”, daquela que “molha tolos”, mas depois o tempo abriu.
À hora de almoço as 22 sacas cheias, já estão na carrinha. Eu e o dono fomos almoçar a casa, também à pressa. Já deixamos as castanhas no armazém.
Às 13:05 estávamos de regresso ao terreno e às nossas funções. Também as senhoras já tinham recomeçado a apanha em bom ritmo.
Durante a tarde tudo decorreu com normalidade, mais 14 sacas cheias. A colheita do dia ronda os 1100 quilos. Bem bom. Venham muitos assim. Se a venda fosse superior a 1,5 € o quilo o agricultor já faria uma pequena festa, apesar do covid. Mas parece que a procura é pouca e o preço nada agradável para quem trabalha a terra.
A tarefa de apanhar castanhas é propícia a conversar, sobretudo se o soprador estiver para lá dos 30/40 metros. E foi o que nós fizemos. Os temas vieram à baila à sorte. Desde o covid 19, o azar da vida que nos havia de bater à porta. Mas que mal fizemos para merecer tamanho castigo? Porque não deixar realizar as feiras se são ao ar livre e todos já usam máscara? Será que o raio do indiano (às vezes o cigano) ainda nos vai confinar a todos, como em Março?
E da senhora de 74 anos que apanha castanhas. Não precisa. Os filhos estão bem colocados. Trabalha porque gosta e é feliz assim. Oxalá todos pudéssemos dizer o mesmo do nosso trabalho. A vida, familiar e social, seria bem mais simples e tranquila.

Edição
3808