A opinião de ...

Os mil olhos do fisco

No grupo dos animais lendários avulta um dotado de enorme poder de destruição de tudo quanto o seu olho caleidoscópio fixa em seu redor. Eu não sei se Orwell ganhou inspiração para os seus livros acerca do Grande Irmão que tudo vê, ouve e regista ou dos porcos triunfantes, mas sei que os escritos do brigadista na guerra civil de Espanha considerados na altura da sua publicação desajustados à realidade futura, alarmistas e ressabiados de um homem zangado com ele próprio por ter acreditado na utopia comunista. E, no entanto, Orwell tal como Júlio Verne bateu no alvo, sendo um visionário alicerçado nas tibiezas e maldades humanas, porque as dos animais irracionais são isso mesmo, irracionais. Ora, em Portugal está em pleno desenvolvimento um olho de contornos arrepiantes mo domínio da fiscalidade,
Os recentes episódios vindos a público onde os contribuintes foram enxovalhados no decorrer de uma operação policial são apenas uma amostra do quero, posso e mando dos burocratas das Finanças que parecem considerar os ditos contribuintes como delinquentes assim no género antes de o serem já o são.
Sim, devemos cumprir as nossas obrigações fiscais, só que a canga dos impostos leva o povo a gemer, leva o justo a pagar pelo pecador, esquecendo-se o Estado de dar o exemplo, de tratar os cidadãos de forma serena utilizando uma linguagem não de estadulho fanfante à moda de Fafe, sim, cordata e disposta a perceber as razões dos pagantes.
Aqui há anos fiz uma reclamação na Secção de Finanças da área onde vivo, a reclamação tinha fundamento, o chefe da repartição teve de reconhecer a lisura e bom-tom do protesto, quando respondeu atreveu-se a escrever que escapava a uma qualquer sanção porque tinha utilizado formalismos considerados canónicos, ou seja em linguagem burocratês.
O Estado fiscal não perdoa um minuto de atraso por um qualquer descuido, porém esse mesmo Estado não procede da mesma maneira quando é ele a repor o recebido erradamente sendo frequentes as queixas por isso suceder a torto e a direito.
Sopraram as televisões que o fisco se preparava para irromper em casamentos e baptizados sem ser convidado, a operação ficou em suspenso ou não estivéssemos à beira de eleições, porém o tal Grande Irmão de olho omnipresente e omnipotente aguarda o momento de voltar à carga sem dó, nem piedade.
O cidadão pouco pode fazer, os deputados fingem não andarem neste Mundo, preferem imitar S, Vito num frenesim legislativo em que nem as pontas de cigarro escapam, quanto às grandes reformas enredam-se nas malhas da demagogia calculista eivada de truques a garantirem entradas nos telejornais no forrobodó de propostas ditas de discriminação positiva a pagar, sempre, sempre, pelos mesmos sem sofismas contemplativos.
Armando Fernandes
PS. Por descuido não dei nota de ter recebido o livro A Cruz Amovível do filho de José e Maria, do Sr. Eduardo Eugénio Paulos. Obrigado pela lembrança.

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