A opinião de ...

STAY AWAY (Fracas Qualidades)

Logo que ficou disponível, instalei, no meu telemóvel, a aplicação Stay Away Covid. Por três razões: é voluntária, mantém o anonimato e apoia o útil rastreio, deteção e confinamento de possíveis focos de disseminação da Covid 19. É uma ferramenta evoluída, segura e útil. Mas não é, obviamente, o Santo Graal do necessário combate à pandemia. Tem, reconhecidamente, algumas virtudes que são, igualmente, as suas maiores fraquezas, sobretudo se fosse tornada obrigatória como insensatamente queria o Primeiro Ministro.
Ao equiparar a aplicação desenvolvida pelo INESC ao uso da máscara o chefe do executivo atribui-lhe um valor que, definitivamente, não tem, como adiante veremos e presta um mau serviço ao estoico combate contra a infeção. Permite (e incentiva a) que se tenha uma perigosa sensação de segurança, inexistente. As duas medidas nunca deveriam ser equacionadas no mesmo plano pois, equiparando-as, injustamente desvaloriza uma e promove a outra. O uso da máscara previne o contágio, coisa que a aplicação não faz!
Vejamos então porque é que as melhores qualidades são, igualmente os seus maiores defeitos.
A manutenção do anonimato sendo necessária e imperiosa, por razões de direitos e garantias individuais inalienáveis, retira-lhe muita eficácia. O que a aplicação diz a quem a tem ativa é que algures, no tempo e no espaço, esteve junto de alguém que acusou positivo para a Covid. Ao não dizer quem nem onde, impede que se possa caracterizar esse contacto e, não o fazendo, não permite avaliar o verdadeiro risco. Foi ao ar livre ou foi em espaço fechado, estávamos todos, alguns ou nenhuns, com máscara, ou sem ela, foi antes ou depois de participar num almoço de família e numa reunião do escritório? Contribuindo para um alerta precoce pode, em certas circunstâncias, espalhar, indevidamente o pânico junto de demasiadas pessoas e levar a um indesejado entupimento das unidades de testagem insuficientes para dar vazão a uma leva acrescida de pedidos, como, tudo indica, vai acontecer.
Enquanto voluntária pode ser usada com responsabilidade por quem a ativou. Se for obrigatória perde essa mais-valia. Imaginemos um profissional de saúde que trabalha num posto de atendimento a doentes covid. Se tiver a aplicação ativa vai receber inúmeros alertas. Obviamente que qualquer um deles há de ter estado mais de quinze minutos com doentes Covid. Sendo anónimos, não se distinguem, entre si. Não duvido que, no decurso do seu trabalho, esteja devidamente protegido mas não vai andar com o fato especial para todo o lado e há de almoçar e jantar sem qualquer proteção. Ao receber um aviso, como saber a que “contacto” pertence o alerta. E se um desses profissionais estiver mesmo com Covid, todos os que acorreram aos serviços onde trabalha irão ser alertados para uma situação, erradamente, perigosa, porque as proteções usadas profissionalmente previnem o contágio nos dois sentidos.

É entendível que o Primeiro Ministro queira sinalizar a sua preocupação e a determinação no combate que se adivinha duro e longo. Faria bem em ser ponderado e razoável (como ele agora tanto reclama dos parceiros políticos) nas suas pretensões, não inventar falsos recursos milagrosos (a aplicação não resolve nada, quando muito apoia) e focar-se no importante. O enorme investimento no desenvolvimento do Stay Away, não seria mais útil e rentável na contratação de profissionais de saúde e aumento dos equipamentos de teste? Se António Costa entendia ser necessário dar um sinal forte à comunidade para ser rigorosa e assertiva nesta batalha... melhor seria ter seguido o exemplo da Presidente da Comissão Europeia e ter-se submetido, voluntariamente, a um período de confinamento, depois do último Conselho de Estado, e, depois da último Conselho de Ministros, como fez a sua homóloga finlandesa.

Edição
3805