A opinião de ...

A crise climática e a estratégia

Embora as previsões cientificas sobre a crise climática, as crescentes ameaças à biodiversidade que aceleram, crescendo a literatura que encontra dificuldades para fortalecer a lealdade ao Acordo de Paris, ganha importância e inspira perspetivas sérias, a probabilidade destes fatores de sustentabilidade e degradação levarem a conflitos graves, incluindo militares. As tentativas das emigrações de desesperados que, juntando naturais da Guatemala, de Salvador e das Honduras, tentaram entrar no território dos EUA, que reagiram sem piedade no outono de 2018, levaram H. Le Picard, do Centre Énergie de l’Ifri, a chamar a atenção para o último Relatório do grupo de especialistas intergovernamentais sobre a evolução do clima (GIEC) de outubro de 1918, que avisa que “um mundo com + 2ºC sofre um stress climático com consequências muito mais desestabilizadoras do que um mundo a + 1,5ªC”. Acrescenta que “mais de um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, prevendo-se para a maior parte deles, que isso aconteça no próximo decénio”. A referência a este aviso é sobretudo para evidenciar a síntese do estudo, segundo o qual “o aquecimento climático e a destruição da biodiversidade aceleram-se a despeito do Acordo de Paris. Isto tem já consequência sobre a estabilidade social e política de vastos espaços do planeta. A ONU mostra-se preocupada, mas os próximos POC, nestes dois domínios, devem acelerar a tomada de consciências e as decisões concretas”. Uma das consequências, que começam a exigir atenção, é o facto da mudança climática ter agravamentos já previsíveis na área da estratégia e segurança. Em 17 de abril de 2007, o Reino Unido mostrou que não estava apenas preocupado com o Brexit, levou o Conselho de Segurança da ONU a organizar um debate público sobre “Energia, segurança e clima”, tornando clara a relação das mudanças com o tema da segurança. O Secretário Geral da ONU, no ano seguinte, por resolução da Assembleia Geral, foi convidado a organizar para a sessão seguinte um relatório sobre a relação entre as mudanças climáticas e a segurança, circunstância que teve expressão, em 2009, com o Relatório do Secretário Geral, de 11 de setembro de 2009, intitulado “As mudanças climáticas e as suas eventuais repercussões na segurança”. O debate continuaria, visto o relevo crescente do problema, que inclui os efeitos produzidos na estabilidade de várias zonas geográficas, designadamente das que já eram suficientemente feridas pela pobreza e consequente agitação da sociedade civil, quebras da estabilidade governativa, e violações da paz. A Alemanha da senhora Merkel assumiu uma intervenção importante neste processo, e a desconsideração do Presidente Americano pelo Tratado de Paris, certamente pelos esforços da ONU, e necessariamente pelo facto de o seu Departamento de Defesa, satisfazendo pedido do Congresso, ter já no Relatório de 2015 reconhecido que a problemática da mudança climática exige uma preparação do aparelho militar nacional para lhe dar resposta. Em França, a Revue Strategique de Defense et de Securité National, debruçou-se com oportunidade sobre a necessidade das instituições de segurança assumirem, as novas problemáticas, tendo sido previsto para 2019 uma reunião no Chile, que infelizmente não parece estar em condições de ser hospedeiro, nem de contribuir para os esforços que, nesse domínio, a França e a China se juntam para ter uma reunião da COP15 no próximo ano 2020 em Pequim. Estes pontos críticos, que devem análise e progresso do conhecimento ao citado Professor Picard, sugerem que a atenção estratégica dos responsáveis pela segurança e defesa, olhando às regiões do globo que tendem para não assegurarem a permanência das populações nativas, podem fazer evoluir as migrações atuais para métodos como os que eliminaram os bons selvagens do nosso mundo. A leviandade em relação ao Tratado de Paris, tem de ser detida.

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