A opinião de ...

Crédito Bancário: Dos sonhos perdidos ao pesadelo duma ilusão desfeita

Quem está minimamente atento à situação do crédito no nosso país, à muito tempo que se apercebeu que nem tudo vai bem na actual política de crédito da banca. Bem pelo contrário e, se dúvidas restassem, os números recentemente divulgados pela Deco referentes a essa política, são um aviso muito sério, a ter muito em conta por todos os agentes envolvidos neste processo do qual ninguém sai totalmente bem na fotografia. Numa primeira análise, parece que já todos esqueceram a recente crise que arrastou o país para a beira do abismo, cujas consequências continuam a massacrar-nos impiedosamente, sabe-se lá por quantos mais anos ainda e, mais grave e preocupante que tudo isto, parece que ninguém, mas ninguém mesmo, aprendeu nada com ela, e que estamos de volta país das mil maravilhas.
A banca, que por todas as razões e mais uma, foi a primeira e a grande responsável pelo autêntico tsunami que varreu e afundou a nossa economia, essa então é que não aprendeu mesmo nada. Como se nada fosse com ela, voltou à mesma volúpia irresponsável de concessão de crédito não produtivo, com especial incidência no crédito ao consumo, que, pela sua natureza, é o mais perigoso para uma faixa muito significativa da população.
As pessoas, tantas delas mal informadas, estão a ser vítimas indefesas de técnicas de venda agressivas, não raro contaminadas pela publicidade capciosa e enganosa e, muito mais grave ainda, pelos desmandos, (e isto, para não lhe chamar outra coisa), da má fé, do oportunismo, da incompetência e da desonestidade de muitos agentes do mercado.
Quem, no desejo lícito de aliviar a dureza das privações impostas pela austeridade, tiver de recorrer ao crédito para aceder a alguns bens para melhorar a sua qualidade de vida, como seja comprar casa própria, dar um curso superior a um filho, comprar um carro, um electro doméstico ou fazer a viagem com que sempre sonhou, pensando que o mau tempo já passou, se não avaliar com todo o cuidado a sua capacidade de endividamento, será pressa fácil duma nova classe de vendedores sem escrúpulos, criadores de sonhos e de ilusões que, pensando só nos seus interesses imediatos, muito mais depressa do que possa pensar, estará irremediavelmente perdido num abismo de dívidas e de obrigações para com a banca. Com a vida transformada num inferno, enleado numa espiral diabólica de créditos para pagar outros créditos, aquilo que lhe venderam como sendo um paraíso, afinal acaba por se transformar num pesadelo aterrador, do qual não têm a mínima capacidade de ser livrar.
É por isso que, aqui chegados, muitos dos que recorrem ao crédito e são empurrados para a situação de incumprimento que não conseguem resolver, destroçados pela vergonha de não terem capacidade para cumprir as suas obrigações, caiem em situações dramáticas de desespero incontrolável, que, não raro, tentam resolver, pondo fim à própria vida.
Segundo a Deco, a situação do crédito em Portugal é já tão preocupante que, se urgentemente não forem tomadas medidas de fundo adequadas, corre-se o risco de se tornar incontrolável e empurrar o país para uma crise idêntica à de 2008, obrigando a reabrir as portas à Troica .
Porque, como diz o nosso povo, “quem compra o que não pode, tem que vender o que não quer”, para evitar o drama dos sonhos perdidos e a dor das ilusões desfeitas, é indispensável: - Nunca acreditar cega e piamente nos vendedores de créditos em que tudo são facilidades;….--E, muito menos ainda, tentar dar o passo muito maior que as pernas.

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