A opinião de ...

FELIZ ANO- NOVO, O DESMONTAR DUMA FARSA.

Sempre que se aproxima mais um fim de ano, revivo com muita emoção e saudade as antigas passagens de ano vividas em Carção, nas então gélidas e escuras noites de Inverno transmontano, (a iluminação eléctrica haveria de chegar anos mais tarde) onde era tudo tão simples, tão autêntico e genuíno. A mocidade, rudimentarmente disfarçada e empunhando enormes archotes feitos com a palha de colmo que sobrara de encher os xaragões no fim do Verão, organizava-se em grupos numerosos que, em cortejos fantasmagóricos, percorriam toda a freguesia, rasgando a escuridão da noite, enquanto gritavam vigorosamente:
- “Pegai no ano que se vai embora, pegai no ano que se vai embora!....
Mas com o tempo tudo mudou e agora, sacrifica-se tudo ao que é moda e ao que fica bem. Por tudo e por nada, enviam-se milhões de mensagens insuportáveis, esboçam-se sorrisos tão ridículos quanto hipócritas, dão-se abraços mais traiçoeiros que o beijo de Judas na última ceia e formulam-se votos de Feliz e Próspero Ano-Novo dirigidos a quem se conhece e a quem não se conhece, a quem nunca se viu e nunca se verá. Mas como isto soa a falso e acaba cedo. Quando acabar a festa e as luzes se apagarem, antes ainda de se digerirem as invejas das cintilantes jóias da vizinha que durante a noite tanto atraíram as atenções de todos, ou engolir o ridículo de terem optado por toiletes démodés e maias vista que a Sé de Braga, tudo voltará ao mesmo e então:
.- Em vez dos sorrisos espontâneos e do calor dos abraços, voltará cada um a reassumir os seus desvarios, alimentar a sua soberba e exibir a sua presunção;
- Em vez dos gestos de solidariedade, de apreço e de cordialidade, voltará a exploração dos mais desvalidos e a preocupação de cada um olhar só para o seu umbigo;
- Desvalorizam-se os gestos de acolhimento, de apreço e de cordialidade perdendo-se tudo na turbulência e no egoísmo do convívio humano de conveniência e de interesses;
- Esquece-se o simbolismo da troca dos presentes e, rapidamente, volta tudo às guerras do consumo, das vaidades, das injustiças e da prepotência sobre os enteados da sorte;
- Deixa-se só para os outros a obrigação de, dia após dia, tudo fazerem pela prosperidade e pela felicidade do próximo, desde que isso não lhe tire o sono nem mexa nos seus interesses.
Sendo pena que este período de felicidade seja tão breve, temos de interiorizar que é esta a crua realidade com que continuaremos a ser confrontados, Nunca perdendo a esperança de que talvez um dia, com amor e verdade, possamos formular para todos

VOTOS OS SINCEROS DE UM PRÓSPERO E FELIZ ANO-NOVO

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3762