A opinião de ...

Espelho de Virtudes

Soubemos no início deste mês de julho que D. Frei Bartolomeu dos Mártires passará a ser oficialmente reconhecido como membro daquela estripe que se deixa consumir pela chama da santidade. Um seu contemporâneo e amigo, o bispo de Milão Carlos Borromeu, com quem Bartolomeu se correspondia, designou-o como «modelo de bispos e espelho de virtudes cristãs». É, por isso, mais um daqueles grandes exemplos que nos precedem apontando para o alto sem dissimular as exigências do tempo presente.
Bartolomeu dos Mártires viveu no desafiante século XVI. Nasceu em Lisboa no ano de 1514 e entrou na Ordem dos Pregadores com 15 anos. Foi professor em São Domingos de Benfica, Batalha e Évora. Morreu em Viana a 16 de julho de 1590. O seu episcopado em Braga, desde 1559 a 1582, foi marcado pelas características do século em que viveu, o século da Reforma. Contando-se entre aqueles membros da hierarquia que assumiram com seriedade a missão de reconstruir a Igreja, Bartolomeu encarnou em Portugal as mesmas opções pastorais de vários bispos europeus do seu tempo. Estes publicaram catecismos para a evangelização do povo e a formação permanente dos párocos, lançaram-se nas visitas pastorais, fundaram seminários, realizaram sínodos diocesanos e provinciais, e promoveram a obrigatoriedade da residência para aqueles que estavam revestidos de uma missão pastoral. Estas iniciativas cinzelaram o perfil do episcopado da reforma católica, qual palco das virtudes do nosso arcebispo de Braga.
Entre as virtudes de Bartolomeu dos Mártires destaca-se a sua particular proximidade aos diocesanos, especialmente aos pobres, o que fez com que por Braga e Viana o designassem desde cedo como «o santo», aplicando-lhe o mesmo epíteto que identifica santo António em Itália. Porém, para a generalidade das pessoas, com facilidade é reconhecido como «o arcebispo santo». Efetivamente nele se espelharam aquelas virtudes que ainda hoje sinalizam os cristãos empenhados: fé profunda e esclarecida, esperança firme, caridade heroica. Dada a sua específica missão de pastor, além da austeridade, distinguiu-o sobremaneira o ardor apostólico pelo cuidado das almas e a humildade, mas também a audácia com que tentou implementar as reformas dos costumes eclesiásticos.
A nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa aquando da beatificação em 2001 sublinha que são três os pontos da sua vida a merecerem incidência sobre o tempo presente: a formação cristã dos fiéis, a formação do clero e o testemunho da caridade evangélica. Dos dois primeiros depende a atualização daquela máxima Ecclesia semper reformanda, do último depende a coerência com o Evangelho que ainda agora produz espelhos de virtudes.

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