A opinião de ...

Ecoando a Fratelli Tutti (III)

Continuamos neste artigo a análise das sombras ou das poeiras que rasgam dentro das nossas cidades. Identifico, como a terceira sombra, uma certa cultura económica. Como sabemos, as opções económicas exercem, a vários títulos, um enorme peso nas opções políticas: no cuidar da natureza, no cuidar do trabalho e dos trabalhadores, no cuidar dos frágeis (sublinham-se, aqui, os migrantes), na resposta às diversas formas de insegurança.
Em relação ao cuidar a casa comum, o papa afirma que tal cuidado não interessa aos poderes económicos que necessitam dum ganho rápido (17). Problema redimensionado quando a maioria de nós se torna insensível a qualquer forma de desperdício (18).
Pelo que respeita ao mundo laboral e ao cuidado social, a lógica do descarte exprime-se, por exemplo, na obsessão por reduzir os custos laborais provocando o desemprego (20). O papa lembra-nos a existência de uma pedagogia tipicamente mafiosa que, com um falso espírito comunitário, cria laços de dependência e subordinação (28), gerando indivíduos domesticados e passivos (187). Ou seja, promove-se a falta de equidade. E quando esta falta de equidade atinge países inteiros e se geram as migrações forçadas, dá-se azo a uma nova forma de escravatura, infelizmente, incapaz de gerar grandes manifestações ou movimentos nas redes sociais. Ainda hoje milhões de pessoas são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura, o que faz do tráfico de pessoas um problema mundial que precisa de ser tomado a sério (24). Traficantes sem escrúpulos, frequentemente ligados a cartéis da droga e das armas, exploram a fragilidade dos imigrantes, o que vem dar ainda mais força à necessidade de se reafirmar o direito a não emigrar e a ter condições para permanecer na própria terra (38).
Gritante é, também, a discrepância nas respostas às várias formas de insegurança. Esclarece Francisco: as guerras, os atentados, as perseguições por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana são julgados de maneira diferente, segundo convenham ou não a certos interesses fundamentalmente económicos (25).
Pelo que diz respeito a uma certa cultura digital e do cancelamento, a quarta sombra, o papa alerta para sintomas importantes. Refere o perigo de se diluir o direito à intimidade, devido a olhares que esquadrinham e desnudam, muitas vezes anonimamente (42) e com um fim caluniador. Além disso, ali, no campo digital, assistimos a formas insólitas de agressividade social (44); ali, empanturramo-nos de conexões e perdemos o gosto da fraternidade, buscamos o resultado rápido e seguro, e encontramo-nos oprimidos pela impaciência e a ansiedade, prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade (33); ali, também identificamos a promoção do narcisismo do grupo, uma vez que o funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças (45); ali, olha-se para o espancado, tantas vezes transmitido em tempo real, mas não se lhe toca (76).

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3806