A opinião de ...

Uma Agenda…

Na régua cimeira dos caixilhos dos quadros negros, de ardósia, das velhas Escolas Primárias do Estado Novo que povoaram Portugal, de Norte a Sul, existiam impercetíveis preguinhos, esquecidos, sem dar nas vistas. Estavam ali para um dia, nas datas estipuladas, nos tempos programados, emergirem da clandestinidade, para serem usados como penduradores, veríamos pela primeira vez, os famosos mapas: linhas de comboio, rios e atlas.
Eram coloridos, atraentes, imaginativos, enroláveis e, os melhores alunos, os preferidos, brilhavam nas tarefas que apenas eles executavam: buscar, pendurar e guardar de novo. Serviam também, estes pequenos génios (sem qualquer culpa neste destaque pois que de crianças estamos a falar), para corrigir a ladainha engasgada dos atrapalhados, dos menos expeditos.
Mas aquelas cores, aqueles desenhos, o cheiro e o tato, dos mais que manuseados e sebentos mapas acompanharam-me através dos tempos, primeiro em sonhos de pesadelo depois, muito mais tarde e ainda hoje, com saudosa nostalgia, como atraente antiguidade.
Por passe de mágica, como se pelo esfregar de uma velha lata de Aladino, a partir do longínquo 74, tudo mudou à velocidade dos tempos que não esperam, o futuro há muito que bufava mas por cá, talvez no Restelo, uns bem instalados velhos travavam, ciosos dos pergaminhos, teimavam e teimam em não partilhar, eles são os mentores da ponte, continuam a cavar o abismal fosso desigual.
Apesar do erudito PP, Pacheco Pereira, oiço-o respeitosamente, com sins e nãos, ter afirmado a eclosão de populistas de esquerda, reafirmo sem arrependimentos, sou e sempre fui de esquerda, nunca populista, mas considero as Corporações o vulcão das injustiças sociais: forças militares e militarizadas, professores, médicos, enfermeiros, políticos, magistrados e funcionários públicos no geral.
Alguma explicação racional/política terá de haver para a reação visceral e patológica de uma determinada camada social de cada vez que se fala de um Ex-Primeiro Ministro pois que, ao mesmo tempo, a indiferença deambula serenamente quando certos assuntos se discutem, com ordem de grandeza criminal mil vezes superior: BPN, BES, Banif, Reforma Agrária, Nacionalizações, abate das Pescas, Agricultura e Ferrovia, e a pressão desumana a que cada um de nós foi sujeito para repor os astronómicos montantes dos monstruosos assaltos.
A repugnação só e apenas a Sócrates é subtil e de altivez, vem dum atrevimento: ousadia do confronto com as Corporações e seus privilégios, os famosos Direitos Adquiridos da era Cavaco, em crescendo, até hoje.
Guardo, como talismã, precioso livrinho com todos os meses do meu ano de nascimento, com atlasito incorporado e, ao folheá-lo, regresso à ingénua infância que não volta.
Claro que terá de ser mas, ao aproximarem-se as Eleições Legislativas, torço para que a Acusação a este arrastado e mediático caso, por parte do MP, não sobrevoe o espaço sagrado da meditação pois que, a acontecer, provocará derrocada da democracia porque este seu pilar, a justiça, mostrará, não com a ingenuidade de infância, um segredo escondido, Uma Agenda…

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