Bispo da Diocese de Bragança-Miranda em carta aberta aos fiéis

D. José Cordeiro deixa mensagem de coragem e confiança aos cidadãos da Diocese

Publicado por Redação em Qui, 2020-03-19 14:27

Caros Diocesanos
Pax!

De repente, tudo mudou! Não temos memória de nada assim! A pandemia do Covid 19 está a mudar tudo rapidamente e até a pôr tudo em causa. Mudam-se as rotinas, mudam-se as vontades, muda-se o estilo e a regra de vida. Afinal acontece a conversão humana, que é feita de mudança, e que por esta oportunidade repentina se acerte a autêntica conversão do coração.

As determinações e decisões tomadas pelas autoridades sanitárias e civis reforçam o combate nesta grande luta pela defesa e promoção do singular dom da vida.

Agora, a decisão do Presidente da República e do Governo de Portugal em declararem o estado de emergência por razões de calamidade pública no período de 19 de março, solenidade de S. José, a 2 de abril de 2020, quinta-feira anterior ao Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.

A Diocese de Bragança-Miranda, solidária e próxima de cada pessoa, partilha a preocupação comum diante da emergência de saúde pública, em total colaboração com as autoridades sanitárias e civis para barrar o contágio da epidemia viral, o coronavírus, Covid 19, conforme já manifestamos na nossa comunicação do passado dia 12 de março.

1. Coragem e confiança
O medo é o maior obstáculo à Esperança. Com S. Paulo podemos dizer: «Quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?» (Rm 8, 35).

Todavia, estes tempos abrem-nos a uma nova cultura do encontro. Se, por um lado, nos distanciamos para proteger a vida, por outro lado, não se distancie o coração, porque «O coração é a catedral do silêncio e é a porta de Deus» (E. Ronchi), lugar da escuta e dos infinitos recomeços.

No Ano em que, na nossa amada Diocese, sublinhamos a Eucaristia, dom da caridade e mistério de vida eterna, somos provocados pelo jejum da celebração comunitária do Bem maior da Igreja para evitar o mal maior da pandemia.

Pois é, ter fé não significa estar isentos de dúvidas, nem sequer caminhar à luz da visão, nem viver sem dificuldades e provas. Não tenhamos medo das crises de fé e de esperança.

A Igreja nasceu de uma crise de esperança. Senão, vejamos: quando celebramos a Eucaristia, fazemos memória daquele momento em que Jesus enfrentou a morte e o abandono, como tornamos presente nos três dias teológico-litúrgicos anuais (Tríduo Pascal, da última ceia até ao tumulo vazio). Os discípulos ficaram sem palavras. E depois, esperavam a glória eminente de Jesus e este não apareceu. Mas é esta memória que faz de nós um povo da esperança na caridade. Estamos juntos. Não tenhamos medo.

2. «... livrai-nos de todo o mal»
A nossa ousadia filial ao dizer “Pai-Nosso” manifesta a confiança e a certeza de sermos amados. Na grande novidade de Jesus ao revelar e chamar a Deus, Pai, inspira-nos o desejo e a vontade de nos parecermos com o Pai, tendo um coração humilde e confiante.

De facto, a nossa autenticidade de filhos de Deus induz-nos e compromete-nos a «nada fazer, dizer, pensar que quebre a unidade fraterna; tudo fazer, suportar, sofrer para promover a comunhão» (A. M. Cànopi, OSB).

3. Bem-hajam! Muito e muito obrigado
Expressamos a nossa mais profunda gratidão por todos os que agem na caridade e na cidadania responsável: aos Presbíteros, aos Diáconos, às famílias; às Paróquias; às Unidades Pastorais; às Pessoas Consagradas; aos Leigos; aos movimentos e grupos eclesiais; à Cáritas Diocesana; às 5 Fundações canónicas; aos 56 Centros Sociais Paroquiais; às 14 Santas Casas da Misericórdias; a outros Centros Sociais e Instituições; às Confrarias; às Irmandades; às Escolas; aos médicos, aos enfermeiros e a todos os profissionais de saúde.

Rezamos por todos e cada um, especialmente pelas Pessoas doentes, pelos mais velhos e todas as pessoas que vivem no sofrimento, na solidão, no isolamento, na prisão, na deficiência, na ignorância, na pobreza, na depressão, no stress, no desemprego e na migração. O Senhor conceda a Sua Luz, Paz e Consolação a todos os nossos irmãos defuntos.

Agradecemos pela colaboração recíproca com as instituições autárquicas, civis, académicas, das forças da segurança, da solidariedade social, da comunicação social e por todas as pessoas que buscam o Bem, a Justiça, a Paz e a Verdade na sua vida.

É desafiante a coragem e a confiança que Etty Hillesum, uma jovem, holandesa judia que morreu com menos de 30 anos em Auschwitz, deixando no seu diário: «Meu Deus, apoia-me e dá-me força. Porque a luta vai ser difícil. (...) Dentro de mim, há um poço fundíssimo. Lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas o mais frequente é o poço estar cheio de pedra e cascalho e Deus soterrado. Então é preciso desenterrá-lO. (...)E Deus não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que nós próprios fazemos; somos nós quem tem de dar explicações. (...) E se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar Deus».

Que ninguém se sinta só e abandonado.
Estamos contigo irmão e irmã!
Deus não nos abandona. Ele está connosco!

Bragança, 19 de março de 2020, solenidade de S. José, esposo da Virgem Santa Maria.

+ José, vosso bispo e servidor do Evangelho da Esperança