Entrevista

“A vida é feita de altos e baixos, momentos bons e maus, mas a vida não para”

Publicado por GM em Sex, 2020-03-27 18:26

André David, jovem treinador de 34 anos, natural de Sabroso de Aguiar, Vila Pouca de Aguiar, recorda momentos de um passado recente e olha para o futuro nesta entrevista com o Mensageiro. Com um discurso sóbrio e confiante, o técnico do GD Bragança, analisa o momento atual do desporto e do mundo.

MdB - Como começou a ligação ao Futebol?
AD - Sonhava ser jogador de futebol. Quando era miúdo, passava horas a jogar futebol na rua, éramos muitos, jogávamos entre bairros, arranjávamos mil e uma formas para passar o tempo a jogar futebol. Fui lateral direito mas era preciso correr muito e rápido percebi que guarda-redes era melhor, adorava futebol mas correr muito não era para mim. Aprendi a ver e pensar o jogo, porque como guarda-redes conseguimos ler o jogo todo. Mais tarde, influenciado por uns treinadores, que agora são amigos, percebi que tirar o curso de Educação Física me dava competências para ser treinador e assim foi.
MdB - Como lidas com a pressão de ser treinador?
AD - A questão é mesmo, como lido sem ter essa pressão, é horrível passar mais do que 1 ou 2 meses sem sentir a pressão de ter de ganhar um jogo, a pressão de ter objetivos a cumprir ou a ansiedade que aparece antes de um jogo. É isso que me alimenta, porque eu tenho a sorte de fazer diariamente aquilo que amo.

MdB - No teu percurso como treinador, que momento identificas como o melhor e pior da tua carreira?
AD - O melhor momento está ligado ao GDB, esse foi o meu melhor trabalho enquanto treinador, não só pela classificação histórica, mas também pela promoção e crescimento que proporcionamos a vários jogadores, e pelo que a equipa jogava. O pior momento foram estes 8 meses sem trabalhar.

MdB - Quais as tuas referências no mundo do futebol?
AD - José Mourinho, pela forma como revolucionou o treino e pelas portas que abriu para quem não foi jogador profissional. Pep Guardiola, pelas suas ideias e pelo jogar das suas equipas. Jorge Jesus, pelo trajeto e forma como suas equipas defendem e o Bruno Lage, pela sua postura e personalidade.
MdB - Como estrutura as suas equipas para potencializar o máximo dos teus atletas?
AD - A forma como estruturaste a pergunta leva logo a pensar no sistema tático, 1-4-3-3, 1-4-4-2 ou 1-3-4-3, mas mais importante que o sistema é a ideia de jogo. Podemos dispôr os jogadores em qualquer um destes sistemas, quer atacar, quer a defender, mas a base de tudo é a ideia de jogo. Nós procuramos dotar os jogadores de ferramentas para resolver os problemas, individualmente e coletivamente, nos 4 momentos do jogo. Em termos gerais, gostamos de uma equipa que defenda junta, curta, para retirar espaço ao adversário e proporcionar-lhe poucas situações para fazer golo. Com bola, gostamos de uma equipa que jogue junta, com capacidade para fazer o adversário dar-nos o espaço, espaço esse que queremos a aproveitar para criar situações de finalização e chegar ao golo. Mas fazer com que este atacar junto nos permita, após perda, uma forte reação a quando perdemos a bola e assim despender pouca energia para a recuperar. Acreditamos que isso nos dará vantagem energética no jogo.

MdB - O GD Bragança vive um momento complicado, desportiva e financeiramente, como analisas esta situação?
AD - Quero começar por deixar uma palavra de forca, carinho e admiração pelo Sr. Francisco, Sr. Carlos Roxo, D. Lurdes, Sr. Delfim e Sr. Jaime, por tudo o que deram ao clube e pela herança, apos a gestão e demissão do Sr. Presidente. Já tive outras passagens pelo clube, com sucesso, onde tudo correu muito bem. Naturalmente como tudo me correu bem, fui muito bem recebido e acarinhado, pelas pessoas do clube e pela cidade. Fiquei não só sócio/adepto do clube, como um profundo admirador da qualidade de vida da cidade e das suas gentes. Voltei com a convicção que novamente tudo ia correr bem. O clube vive um momento financeiro difícil, desportivamente na equipa sénior também, mas na formação tudo está diferente para melhor. Destaco por isso, o trabalho feito por todos mas essencialmente pelos treinadores e pelo Zé Teixeira, coordenador técnico da formação. Nos momentos de crise o Ser Humano tem uma capacidade de refletir, aprender com os erros, reinventar-se e reformular-se. O Clube tem atualmente diretores, sócios e simpatizantes capazes de resolver os problemas e fazer do Clube financeiramente estável e competitivo nos campeonatos nacionais. O Clube, a cidade e a região mereciam que o clube disputa-se a 2ª Liga, é possível desde que todos os agentes queiram.

MdB - O Campeonato de Portugal, além de outras competições de futebol e futsal, está cancelado. Como encaras estas medidas de prevenção ao surto Covid19?
AD - Era inevitável parar com o campeonato, em primeiro lugar está a saúde de todos jogadores, agentes desportivos e adeptos. Mas o futuro vai ser difícil, com uma crise económica que se advinha, os clubes vão voltar a sofrer com falta de apoios e verbas para suportar os custos da participação neste campeonato. A esse nível a FPF vai ter um papel fundamental, pois mais que as medidas já anunciadas, a redução dos custos fixos, é fundamental.

MdB- Esta paragem o que significa em termos psicológicos para os jogadores?
AD - Significa não fazer aquilo que mais gostam, e muito provavelmente não receber março e abril, pois os clubes dificilmente vão conseguir cumprir. Mas esta é uma questão grave e sensível, pois cada um tem despesas mensais fixas, filhos para sustentar e/ou empréstimos a pagar, adivinham-se tempos muitos difíceis para todos.

MdB-Ainda é possível sonhar com a manutenção do GD Bragança?
AD - A nossa situação é muito difícil, mas a nossa postura não pode alterar pela situação em que nos encontramos, temos de ser profissionais, dedicados, focados e determinados em cada treino e em cada jogo. A vida é feita de altos e baixos, momentos bons e maus, mas a vida não pára. Por isso temos de continuar a evoluir como Homens e como jogadores/treinadores, preparados para um futuro melhor. Quando falo de nós jogadores e treinadores, o mesmo se aplica ao clube, é nisto que acredito.

MdB-Quais as os objetivos a curto e longo prazo que traças para a tua carreira?
AD - A cada semana de trabalho, a cada jogo, a cada treino, quero ser melhor, melhor treinador. Esta é daquelas fases na vida em que se olha para a frente e se vê muito pouco. Não adianta fazer esse exercício, é viver o momento, aproveitar cada dia de trabalho errar, refletir, corrigir, e voltar a tentar novamente. As oportunidades vão aparecer.

MdB- Quer deixar uma última mensagem aos sócios, simpatizantes e á cidade?
AD - Adoro o clube, adoro Bragança, adoro a forma como todos sempre me trataram. Esta capacidade em receber bem, em acarinhar o outro é única no País. Ao longo dos séculos, o povo transmontano já provou do que é capaz. Se a região, a cidade, a autarquia, as empresas, os sócios e todos os simpatizantes do clube quiserem, o clube pode ser mais forte e mais capaz, basta que todos se juntem.