A opinião de ...

Copo meio cheio ou meio vazio?

No domingo passado, o Papa Francisco assinalou no Vaticano o III Dia Mundial dos Pobres, com a celebração da Missa, na Basílica de São Pedro, questionando o descarte de pessoas em nome do lucro.
“Quantos idosos, nascituros, pessoas com deficiência, pobres… considerados inúteis! Andamos com pressa, sem nos preocuparmos que aumentem as desigualdades, que a ganância de poucos aumente a pobreza de muitos”, disse, na homilia da celebração transmitida pelos canais da Santa Sé e citado pela agência Ecclesia.
Na mesma ocasião, Francisco criticou uma sociedade com “pressa”, capaz de deixar para trás quem não ajuda a “dominar tudo e imediatamente”.
Salvaguardadas as devidas distâncias, estas palavras do Papa poderiam servir de reflexão para quem governa os destinos de Portugal, na hora de acabar com as assimetrias entre o Litoral e o Interior (terra dos ‘pobres’, deixados para trás quase todos os dias).
Apesar da escassez de oportunidades fora dos grandes centros urbanos, quem habita as periferias não é nenhum inútil. É preciso ter este ponto em mente de forma a poder diminuir as desigualdades.
Desigualdades assumidas pelo Governo ao criar uma Secretaria de Estado para a Valorização do Interior. Um passo mais simbólico do que prático mas, ainda assim, um passo. E quando se dá um passo sai-se do imobilismo que, durante anos, foi deixando o Interior do país exatamente na mesma e se há alguma coisa de que estes territórios desfavorecidos precisam é de mudança.
A começar por uma mudança de mentalidade de quem nos olha a partir de fora. E a instalação em Bragança da tal Secretaria de Estado da Valorização do Interior, liderado por uma brigantina que dá cartas na área do conhecimento, é daqueles sinais bem grandes e luminosos que são impossíveis de ignorar.
Esse sinal pode não se traduzir no apoio político (e financeiro) necessário às grandes mudanças que esta faixa “não costeira” do país anseiam há tanto tempo. Mas abre, pelo menos, a porta a que, agora, as gentes de cá tenham mais uma arma para lutar contra o imobilismo.
Podemos olhar para esta decisão – histórica para o distrito de Bragança por ser a primeira vez que acontece a instalação no Nordeste Transmontano de um braço tão importante do Governo e que foi antecipado, em primeira mão, pelo Mensageiro de Bragança – de duas formas. Vendo o copo meio vazio, de que não traz nada de diferente, que fica tudo como dantes, que mais valia nem ter cá nenhuma secretaria de Estado, ou olhar para o copo meio cheio, com mais oportunidades de matar a sede do que se não houvesse água alguma.
Devemos resistir à tentação de nos deixarmos tolher pelo triste fado lusitano e, mais uma vez, fazer orelhas moucas aos ‘velhos do Restelo’ que se lamuriam por tudo e o seu contrário.
É história que se escreve pois nunca Bragança teve tamanha importância ou centralidade, aos olhos de quem nos governa a partir de Lisboa. Aliás, é mais um contributo para que a expressão “a partir do Terreiro do Paço” perca a força castradora que, sucessivamente, vai tendo.
Na mesma ocasião, o Papa pediu que se rejeitem os “alarmismos” que semeiam o medo e paralisam as pessoas. E é de dinâmica que se precisa, para levar para a frente a região e o país.

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