A opinião de ...

«Senhor, ensina-nos a orar»

O discípulo – como atesta Lc 11, 1, «Senhor, ensina-nos a orar» – pede ajuda ao Mestre para rezar, para os ajudar a criar intimidade com o Pai. Esta inquietação movida pelo Espírito Santo no coração do discípulo resultou na mais bela oração: o Pai-Nosso.
De facto, rezar é orientar a vida para Deus a quem tratamos por «Abbá» (Papá, Paizinho), nome que expressa a radical ternura e que brota desta intimidade gerada entre nós e Deus. A oração é, com efeito, o despejar dos barulhos interiores que impedem a escuta atenta da Sua palavra, e deixar apenas ouvir-se em si o som desta Sua voz que se faz sentir como uma brisa suave que embala ao fim da tarde.
Assim se entende que a oração é aquela que amplia e ilumina a vida e a existência de cada um, transformando a mesma em lugar onde a presença de Deus se manifesta como luz e paz. Toda a oração orienta para uma nova dimensão social e relacional: o perdão. O perdão é a marca e o sinal da conversão, da mudança real e efectiva da vida. Só quando perdoamos e somos perdoados é que sentimos que a misericórdia é o fundamento da vida, uma vez que perdoando amamos e amando perdoamos. Sabemos que amar é uma arte: uma arte muito exigente e inacabada e que implica visceralmente o perdão.
Assim, na oração do Pai-Nosso, quando rezamos – «perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende (Lc 11, 4)» – somos convidados de imediato ao perdão como modo de (ser e estar na) vida. Eis a exigência maior para os tempos que correm… fazer da oração a expressão autêntica de quem ama e perdoa por inteiro.
O Pai-Nosso é a oração do ser santo. Rezá-lo por inteiro é fazer da vida um lugar pleno de Deus. Cumprir e viver com exigência o Pai-Nosso é concretizar o ideal evangélico do reino de Deus, isto é, tornar a existência como reflexo da bondade e da misericórdia de Deus em todos os seres viventes. Lembro com alegria a estória de um menino que ao aprender o Pai-Nosso esteve alguns meses sem aparecer à catequese; volvido este tempo, eis que aparece. Então o Sr. Padre pergunta-lhe: “Meu menino, porque deixaste de vir à catequese”? A resposta é surpreendente: “Sr. Padre, só depois de começar a viver o que rezo no Pai-Nosso é que decidi voltar; agora sim, estou a rezá-lo com e em verdade!”
Interrogo-me se nós, por vezes, não rezaremos esta petição do Pai-Nosso a mentir. Por isso a questão: como é a minha oração? Mentido quando rezo o Pai-Nosso?

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